Sexta-feira, 18 de Junho de 2010

Discursos Sobre a Cidade - 103 - Por Tupamaro

 

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“CONVERSAS COM ZEUS”

 

-XI-

“ABRILOTAS e Abrilotos”


 

 

Andamos cá a cismar no que irá acontecer no próximo 8 de Julho, aí por Chaves, já que quanto ao próximo 10 de Junho esperamos mais do mesmo, isto é uma inundação de vacuidades, de lavagem de comportamentos covardes, traidores e traiçoeiros perante um Povo bom e sério, e, por isso mesmo, facilmente contido no redil da resignação, que os marmanjos ABRILOTAS, com o apoio de lambões Abrilotos, conseguiram construir.


O 8 de Julho continua a ser apenas um oportuno pretexto para um grupo de ABRILOTAS e seus Abrilotos locais fazerem mais uma borga, ouvirem tocar as «concertinas dos Rapazes da Venda Nova» e os amigalhaços lhes tirarem mais uns retratos, onde ficará eternamente gravada a magnificência da sua grandeza histórica!


O 8 de Julho, aí por Chaves, continuará a ser um biombo a disfarçar as pantominas desses títeres e saltimbancos e, ao mesmo tempo, a esconder os feitos de muitos Flavienses que, imperativamente e com toda a Justiça, deveriam ser recordados.


Lembrámos a Zeus que viesse às CALDAS beber um copo para melhor regular o trânsito das suas preocupações com a sua amada Grécia.

Claro que o que nos queríamos era que ele desse umas voltas pelos “circuitos de geometrias variáveis aí da NOSSA TERRA”.


Desculpou-se com tantos afazeres.


Mas nós até lhe chapámos na cara que ele, o que tinha, era medo de se assustar com os descalabros que o esperavam.

 

Mas ele teimou:

 

-“Ei! Tamegano! Não esqueças que eu conheço de ginjeira esse retalho ibérico mai-la sua gente. E conheço “à légua” os sacripantas e os pavões de Castelões empoleirados nos caldeiros da cozinha do Duque!

O Bordalo já ensinou, simbolicamente, o que esse Povo tem a fazer.

Ora, que deixe de ser sonso, e … catrapimba”!

 

-É verdade, Zeus, - retorquimos.

 

Desgraçadamente para Portugal, e ainda mais desgraçadamente para a Normandia Tamegana, a cambada de ABRILOTAS e Abrilotos medra que se farta!


Arranjar diplomas sabem eles! E como a tradição da «banha da cobra» ainda continua a servir para engrampar o Zé Povinho, apesar de esses ABRILOTAS e Abrilotos não comportarem Conhecimento, apenas «sabiciche- xico-‘spertice», cá continuamos sujeitos a ter de aturar javardices políticas, borradas economicistas, azeiteiros caprichos de excrementos partidários, descaradas roubalheiras por larápios disfarçados de ministros, conselheiros, deputados, vereadores e outros afin(s)..adores que tais!


Para esses ABRILOTAS e Abrilotos (de merda) parece que em Portugal só há duas classes de gente:


Eles - os XICO’SPERTOS; e os Outros, os LORPAS!


E, lá, desde a redoma da sua impunidade, não se importam de fazer de Portugal uma Sociedade indecente - uma Sociedade onde as «Instituições humilham as suas gentes».


Eles, infames (vis, abjectos, ignóbeis), querem ver os Outros infames ( sem fama, sem proveito).


Os ABRILOTAS e os Abrilotos são gente reles. “Do piorio”, como usamos dizer, por aí.


Não conhecem o irmão, nem o companheiro, nem o vizinho.


O engaço, só quando o pisam e este lhe quebra a cornadura.


O 25 de Abril anunciou e trouxe a Liberdade - os ABRILOTAS e os Abrilotos bem a aproveitaram para subir ao alto patamar da sua incompetência.


O 25 de Abril anunciou e trouxe a Igualdade - os ABRILOTAS e os Abrilotos logo decretaram serem eles «mais iguais do que os outros».


O 25 de Abril anunciou, mas não trouxe, a Solidariedade - os ABRILOTAS e os Abrilotos saíram-lhe ao caminho e ficaram-lhe com ela.

E Portugal continua uma Sociedade Indecente.


Essa «gajada» apanhou as OPORTUNIDADES de, mefistofelicamente, ocupar cargos de administração pública.


Essa «gajada» sabe muito bem que essas OPORTUNIDADES lhes acarretam RESPONSABILIDADE, mesmo que não queiram.


Mas esgadunham-se todos para só aproveitarem a OPORTUNIDADE das OPORTUNIDADES e sacudir a RESPONSABILIDADE.


Ah! Que esperta, espertinha e espertalhona é esta «gajada»!


Os ABRILOTAS e os Abrilotos, desde Belém e S. Bento, desde a Avenida do Almirante, da Rua do So(lh)eiró, do Ca€tano à Lapa(da), do Largo do Rato a fazer manguito ao do Caldas, e do canto do olho verde da Boavista, com a ajuda de renegados colaboracionistas, estão a empurrar os limites da resignação dos Portugueses para zonas perigosas de indignação.


E aquilo que nós queremos chapar na tromba desses ABRILOTAS e Abrilotos “pavões”, «cuneiros”, so…cretinos, so…ar(t)istas, boli…queimes ou boliqu’ ardes, gamófilos, joaninos, antoninos, jacobinos, batistetas, lalinhos, esquerdelhos e direitelhos, pentelhos de hipótese de gente decente, e etecétera coisa e tal, a esses ABRILOTAS e Abriolotos queremos chapar na tromba da sua Face Oculta e à Vista os Cinco Sentidos de


 

J U S T I Ç A!

 



Tupamaro


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Sexta-feira, 4 de Junho de 2010

Discursos Sobre a Cidade - 101 - Por José Carlos Barros

 

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Quase as Vuvuzelas da Selecção

 

um texto de José Carlos Barros

 

http://casa-de-cacela.blogspot.com

 

 

Eram uma espécie de vuvuzelas daquele tempo: o metal em vez do plástico, a mesma forma aproximadamente cónica, um mesmo som esganiçado a abrir e a fender na propagação em eco. Sim, mais pequenas. Vendiam-se a quinze tostões na Feira dos Santos. Um sucesso. Um rapaz, primeiro, e depois outro, e depois todos os rapazes da Vila compraram a gaita – ou comprada lha traziam tios e padrinhos. Durante os dias seguintes não se ouvia outra coisa, da Senhora da Livração ao Jardim dos Correios, dos Correios subindo em duas direcções até ao Alto da Ribeira. O Mestre Zé Serralheiro, de porta aberta ao Largo do Toural, já não suportava pela oficina adentro o som de bandalheira cafre das cornetas. E então chamou um dos rapazes, o mais afoito e comandante de entre todos, e explicou, a voz muito dada, que os instrumentos de sopro lhe pareciam excelentes mas um cibo desafinados. Interrogado logo pelo jovem se não fazia o favor de afinar-lhe a gaita, explicou o Mestre que sim, com muito gosto, mas então que as juntasse todas e o serviço cumpri-lo-ia de uma só empreitada. Assim se fez; e o grupo em coro, sob o comando do moço afoito, foi ao Mestre entregar as gaitas num saco de lona de espantoso volume. Os rapazes à porta – que a nenhum foi dado nunca atravessar a pedra de entrada da oficina a mexer em martelos e escopros, maçaricos e rebarbadoras, vielas ou carretos de mudanças – e o Mestre a juntar sobre uma chapa metálica de dois centímetros de espessura, primeiro alinhadas, logo após em pirâmide cuidadosa, vinte e duas gaitas de quinze tostões compradas na Feira dos Santos de Chaves. A olhá-las de lado. Mas lá lhe terá parecido que o método não seria o mais adequado e voltou a enfiar as gaitas no saco, mexendo-o para que ocupassem bem os vazios, e enfim poisando-o na chapa. Foi o tempo de um ai: ergueu o maço de ferro muito na vertical e arremessou-o violentamente sobre o saco ouvindo-se um estridente barulho espatifado de cornetas. Mestre Zé Serralheiro respirou fundo; olhou os moços ainda suspensos do gesto; e explicou-lhes, numa voz vagarosa e muito adocicada, «que agora é que tocavam afinadinhas que nem os clarinetes da Banda do Couto».

 

E até hoje era proverbial este silêncio dengoso da Vila, espalhado das ruas e largos aos pinhais do Padrão, da Seixa ao Voluntário, do Noro até Onde-se-Juntam-os-Rios. Até hoje: porque ainda há bocado o Inácio saía da ourivesaria e viu uns oito moços a tocar vuvuzelas da Selecção em esganiçado esforço nas escadinhas da Câmara. Temeu o pior. Parou por instantes a caminho do Arsénio e não se teve (dizendo primeiro: «uuuui») que não lamentasse a falta do Mestre Zé Serralheiro: «ou muito me engana o ouvido ou estas gaitas estavam era a precisar de ser afinadinhas na velha oficina do Toural».

 

 



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Sexta-feira, 28 de Maio de 2010

Discursos Sobre a Cidade - 100 - Por Gil Santos

 

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CASSAPOS


Manuel Fagundes Arrebita, era um preguiceiro. Nunca fez nada que jeito tivesse do que exigisse puxar pelo lombo bem entendido, porque no negócio era um portento. Nasceu na rua Verde, sabe Deus quando. Órfão temporão de pai, sua mãe consumiu-se ainda nova por mor de o criar desparasitado e bem nutrido. Finou-se pouco antes de o ver nas sortes, altura tida como a do verdadeiro desaninhar.


Até àquela altura polia esquinas, o mesmo é dizer não fazia a ponta de um corno. Parava pelos Quadradinhos, seu escritório, sempre atento às conversas dos engraxadores e aos negócios dos aldeãos que nos dias de feira faziam do Arrabalde o ponto de encontro. Mestre da manigância fazia da rua escola e mais tarde da tropa universidade.


Pelos dezanove anos assentou praça no Quartel de Infantaria Dezanove, onde refinou a arte de prestidigitador no contacto directo com a corja do ardil. A tropa manda desenrascar e ele rapidamente se desenrascou.


Quando um mancebo assentava praça, era-lhe distribuído, para além do fardamento, uma panóplia de outros artefactos que ficavam à sua responsabilidade por todo o tempo que se encontrasse a cumprir o serviço militar. Tinha de os apresentar no dia do espólio, isto é de passagem à disponibilidade ou à peluda como se dizia na gíria da caserna. Se esses equipamentos não fossem apresentados, havia que os pagar e a bom preço. Ora ninguém estava para aí virado, pois o dinheiro era ainda mais escasso do que é hoje. Por isso, sempre que alguma coisa desaparecia, era costume fazer-se uma de duas coisas: ou se mantinha o bico calado e na primeira oportunidade subtraía-se a outro, que provavelmente já a havia fanado a um outro e assim sucessivamente, ou então comprava-se no mercado negro, de preferência por uma bagatela.


O Arrebita não precisou de muito tempo para se enfarinhar no negócio. Prestes se transformou num autêntico padrinho napolitano. À sua conta tinha para mais de uma dezena de larápios, a quem comprava a mercadoria por tuta e meia e que depois metia no armazém-loja que tinha nos baixos de sua casa. Este estabelecimento só abria as portas a gente de confiança. Quem roubava sabia a quem vender e quem precisava a quem comprar. No seu supermercado havia de tudo: fardas completas de qualquer número, bonés e botas, sapatilhas, cintos e cartucheiras, balas granadas e cantis, baionetas, marmitas, garfos e colheres, havia inclusivamente peças avulsas de armas como culatras, canos e coronhas nomeadamente da conhecida Mauser Vergueiro. Não faltava nadinha. Se no momento não houvesse em stock, o cliente que ficasse descansado, dentro de um ou dois dias seria servido. O negócio era próspero enquanto andou na tropa. Quando passou à peluda enfraqueceu por ausência do cheiro da caserna. Mas ainda assim dava para viver e isso é que interessava.


Arrebita, era uma verdadeira toupeira do mercado subterrâneo, um dinossauro da compra e venda de material de guerra. Dizia-se que chegavam a vir do Porto à procura da sua mercadoria. Vivia bem o lapantim e sem fazer nada. Lábia não lhe faltava e se fosse preciso trabalhar noutro ramo, por exemplo armar estrangeirinhas para ludibriar bagalhuços aldeãos, não se ensaiava nada.


Por falar em conto do vigário lembrei-me agora de uma que lhes conto.

 

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Estando um dia no Arrabalde, Manuel ouviu dizer que o governo tinha contratado uma série de engenheiros para que fossem pelas aldeias do concelho actualizar as medições dos prédios rústicos para rectificação das matrizes prediais e respectiva actualização das contribuições, décimas, como à época se chamavam.


Viu a dele boa: iria ser engenheiro das medições!


Reuniu com o sócio Necrotério, antigo camarada de caserna, seu braço direito e juntos montaram a estrangeirinha:


Primeiro era preciso vestirem-se como verdadeiros engenheiros.


Depois afinar a linguagem técnica.


Por fim arrear as montadas e cavalgar por essas aldeias além.


Assim foi.


Foram ao Sarmento e botaram os metros de tecido necessários para dois fatos que o alfaiate Queirós haveria de fazer à medida. Camisa branca e gravata a dizer com a fazenda. Depois às Curadoras: botas cardadas e polainicos. No chapeleiro da rua Direita mercaram finos chapéus de felpo.


A seguir ensaiaram o paleio técnico, o que não foi nada difícil por serem especialista do endrominanço.


Por fim arreios a preceito para os cavalos, comprados nas lojas da especialidade à muralha do Baluarte do Cavaleiro.


Combinaram nomes falsos, engenheiro Teodoro para um e Torcato para outro.


No dia combinado abalaram serra arriba.


Iniciaram a saga pelo Barroso. Pedrário, primeira aldeia para experimentar. Correu de feição, continuaram, apurando cada vez mais o guisado.


E como faziam?


Chegavam ao lugar e procuravam o Regedor por mor de saber quem eram os grandes proprietários e ainda para dar peso institucional à coisa. Depois instalavam-se em casa de um dos mais ricos da aldeia. Armados de pasta, bloco de notas e teodolito, iam por essas courelas fora, acompanhados do proprietário e vai de fingir que mediam, que escrevinhavam e que tiravam os azimutes. Interim iam dialogando sobre a metragem e o imposto a que correspondia. Criavam assim o ambiente favorável para que os lavradores percebessem que pagariam grossa maquia de décima. Claro… a não ser que estivessem dispostos a compor a coisa com uns presuntos, uns salpicões e uma notitas de cem. A estratégia resultava, porque uma coisa era presentear uma única vez os engenheiros e outra a vida inteira o Estado!


O negócio corria de vento em popa. Os melros engordavam a olhos vistos e os proprietários contentinhos porque nalguns casos ainda iam pagar menos do que o que desembolsaram os seus avós.


Negócio perfeito.


Acabando numa aldeia partiam para outra levando o alforge repleto e a carteira anafada.


A coisa foi andando.


Quando viram que a teta barrosã tendia a secar e até mesmo para não dar muito nas vistas, viraram-se para o Planalto do Brunheiro.

 

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Claro está que naquela época as notícias corriam à velocidade do caracol. Contudo, mesmo assim, feira a feira não deixavam de se actualizar as novidades. Evidentemente que quem tinha sido favorecido pelas medições e eram quase todos os que tivessem por onde pagar, calavam-se como ratos. Porém, um ou outro lá se ia descaindo com os amigos e a notícia foi-se espalhando.


Ao Ti Moreiras do Carregal, pequeno proprietário, conhecedor de meio mundo, batido pelas balas do boche na guerra dos dezassete e curtido pela miséria dos campos de concentração alemães, chegou a notícia pela boca de um camarada barrosão que era um grande proprietário rural de Vilar de Perdizes e o acompanhou na Saga de Chaves a Copenhaga, nessa maldita Grande Guerra.


— Ó Moreiras, sabes que um destes dias, apareceram-me lá por Vilar dois engenheiros das medições! Olha que engrampei bem os filhos da curta! Mamaram-me umas chouricitas e uns presuntos, mas consegui que baixassem para metade as áreas das minhas poulas. Estou que vou pagar ainda menos de décima do que o que pagava inté aqui.


— Não me digas Aniceto! À minha terra ainda não chegaram. Conta-me lá os pormenores para eu fazer o mesmo.


Contou tudo timtim por timtim.

 

Passado uns tempos e umas feiras mais, já se comentava de que tinha havido tramóia com os engenheiros no Barroso. É que parece que apareceram por lá outros, se calha os verdadeiros e a coisa estava a desmascarar-se.


Entretanto, o Arrebita e o companheiro, continuavam na fresca ribeira a meter para o bucho e para o bornal, agora em terras do Planalto. Todavia, quando chegaram ao Carregal, terra do Ti Moreiras, ele já estava precavido e fez-se de mula!


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Recebeu o Regedor muito bem, aceitou que as companhias se instalassem lá em casa durante os dias que fossem precisos para o trabalho das medições.


O esquema era o mesmo de sempre.


O casal do Ti Moreiras ficou para último.


Daí a dois dias já estavam arrecadados na adega presuntos e cambalhotas de salpicões e linguiças, pagas de favores.


Estiveram por lá quase uma semana.


Os dias passavam-nos nas terras, os serões a ouvir as histórias de guerra que o anfitrião fazia questão de contar na primeiríssima pessoa.

Na última noite o Ti Moreiras e uns quantos do lugar, tinham uma surpresa reservada para os artistas.


Aquela noite estava fria como navalha de sincelo e negra como breu. Era Fevereiro, cerca do Entrudo e pelo Planalto soprava um vento galelo danado. Levava orelhas, barba e o mais que estivesse ao relento. Fosca-se!


Ora, depois de farta ceia de couve penca, feijão vermelho e pernil fumado, fizeram como nos outros dias, largo serão. Só que desta vez no lugar das histórias havia chincalhão[i] e cachaça para aquecer. Já tudo meio grogue, o Ti Moreiras sai-se com esta:

 

— Ó rapazes e se fossemos aos cassapos? Deve ser novidade aqui para os nossos amigos e a noite está mesmo à feição!


— Boa ideia — disseram os amigos.


Mesmo os falsos engenheiros ficaram entusiasmados. Só não sabiam o que eram cassapos.


— É surpresa, vocês vão ver. Haveremos de fazer uma tainada do catano amanhã!


— Assim seja — concordaram os engenheiros.


Foram então combinadas e distribuídas as tarefas. O Ti António Moreiras e os vizinhos, conhecedores do terreno e dos carreirões que os cassapos trilhavam para se alimentarem à noite, ficaram com a missão de os tocar até às embocaduras dos sacos, aí os engenheiros, em silêncio, colocar-se-iam cada um com seu saco de serapilheira bem aberto, para que os bichos acossados entrassem.

 

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— Não tem nada que saber, os senhores engenheiros vão ficar, um na Ladeira junto ao toco das raposas e outro nos Cáximos, junto à poça, de saco aberto no meio do carreirão, por onde eles hão-de passar. Como é de noite e eles vêem mal entrarão nos sacos. Têm é de ficar caladinhos para que não se assustem e tornem para trás. Nós vamos à volta e tocamo-los até aos senhores. Logo que entrem, fazem o favor de fechar bem o saco e aguardarem-nos para que lhe tiremos o pio.


— E os bichos mordem? — perguntaram em uníssono os engenheiros.


— Qual quê, são mansos como cordeiros, vão é ser mordidos por nós na janta de amanhã. Vamos?


Lá foram serra fora. Os aldeãos acautelados de samarra, boina galela e varapau para tocar os cassapos, os engenheiros, corpo bem-feito e saco de serapilheira às costas.


O senhor engenheiro Teodoro ficou no cimo do Belão, na Ladeira entregue a um carreirão onde corria um briol de tralhar a medula dos ossos, o Torcato ao lado da poça do Cáximos, já em carambelo pelo sereno da noite.


Puseram-nos em posição, aconselharam silêncio e foram tocar os cassapos, evidentemente para as mantas quentinhas e fofas de suas camas.


Os engenheiros estiveram à espera até de madrugada. Enregelados!


Os cassapos não apareceram.


Quando se deram pela tramóia, sebo nas canelas e a butes para Chaves!


Largaram montadas, salpicões, linguiças e presuntos.


Não deixaram o próprio canastro porque não foram audazes ao ponto de reclamar os pertences!..


Até hoje, nunca mais ninguém os viu pelo Planalto.



Benditos sejam os cassapos e mais quem nos inventou!





[i] Jogo de batota com cartas.

Gil Santos

 

 

 

 


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Quinta-feira, 27 de Maio de 2010

Discursos Sobre a Cidade - 99 - Por Blog da Rua Nove

Texto de Blog da Rua Nove

 

(XI)

 

Verificou todos os recantos do quarto antes de pegar no envelope. Pareceu-lhe que havia sido deixado por alguém que se movimentara ali dentro para chegar apenas à mesa. Um envelope azul, de papel espesso e entretecido. Lacrado. Um envelope dos serviços, mas sem qualquer nome ou identificação exterior.

 

 

O relatório, como pensara. Abriu o envelope cuidadosamente. Já com os papéis na mão, arregalou os olhos e franziu as sobrancelhas, soltando uma risada surda. Ninguém esperaria que o contactassem daquela maneira. De facto, os oposicionistas arranjavam sempre uma forma engenhosa de comunicação. Teria sido uma das criadas?

 

 

Todas as informações coincidiam com as que recebera dos serviços. Na primeira cópia. Na outra surgiam aqueles que pareciam os verdadeiros planos. Seriam documentos fiáveis até para os serviços. Mas a mensagem cifrada estava lá. A rota do candidato, que a polícia já conhecia de antemão, e tudo o resto que desconhecia – os encontros clandestinos, os planos, os contactos privilegiados, as personalidades que o apoiavam, sem que a polícia disso soubesse.

 

 

Displicentemente, abandonou os documentos sobre a mesa. Não lhe apetecia continuar a lê-los. Precisava de dormir. Mas nunca conseguira dormir com a barba por fazer. No lavatório refrescou a cara, reparando nas olheiras que se reflectiam ao espelho. Há já muito que não se via assim, com a consciência de estar frente a frente consigo próprio. Olhava para a sua imagem como se olhasse para a de um desconhecido.

 

 

No rosto notou duas linhas fundas acompanhando as sombras do nariz, contornando as narinas e terminando quase na comissura dos lábios. Pela primeira vez apercebeu-se que estava a envelhecer. E sentiu cansaço. Um imenso cansaço interior.

 

 

Voltou-se, regressando à sala. Colocou os papéis na pasta e fechou o cadeado. Hesitou, parecendo não saber o que fazer com aquele volume. Sem muita convicção, passou a pasta da mesa para a secretária. Exausto, caiu na cama, deixando o pijama na gaveta, a barba por fazer e os cortinados abertos.

 

 

(continua)

 


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Sexta-feira, 14 de Maio de 2010

Discursos Sobre a Cidade - 98 - Por Tupamaro

 

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CONVERSAS COM ZEUS”

-IX-

Terrenos e Celestenos


 

Cheirou-lhe a Primavera cá para estas margens atlânticas e Zeus chegou-se a uma das sacadas parecidinhas com as de CHAVES e espreitou a Normandia Tamegana.


Bem, temos de, já, já, reconhecer que Zeus tem bom gosto e que até umas certas Fotografias de um tal Dinis lhe «enchem as medidas».


Íamos a caminho de Samarcanda. Deu conta da nossa passagem. E, como aprendeu bons costumes com os Bichos do Reino Maravilhoso, chamou por nós, e convidou-nos para beber.


Nós até já lhe conhecemos muitas divisões dos seus muitos palácios, palacetes e casas.


Mas não contávamos era ver um rico presunto penduradinho na Adega para onde entrámos.


Zeus é perspicaz e topou aquele tracinho insignificante que se nos escapou com a surpresa.


 

- Este é de CASTELÕES! – atirou-nos sem mais nem quê.


Pega num pichorro, e armado ao pingarelho, vira-se para nós e interroga:


- Branco ou Tinto?

 

- Ai que baile! – pensámos cá com os nossos botões.


Desconversámos, e dissemos:


- Do Silveira, da AGRELA de ERVEDEDO.

 

- Fintaste-me! Desse ainda não o proβei! Mas, já agora, dou-te a penitência de me arranjares um caneco dele, dê lá por onde der!

 

Uf! E Samarcanda ainda tão distante!


Uma comadre de Hera entrou com uma rica sêmea de LEBUÇÃO, dois pães – centeio da CASTANHEIRA, três trigos de quatro cantos de FAIÕES acomodados num tabuleiro feito por um artesão de CARVELA e mostradinhos numa toalha de linho feita e bordada em SOUTELO.


Mal reparámos na comadre - devia ser prima direita de Afrodite!... – e já na tampa da tulha «pintavam» mais dois salpicões e três linguiças.


-Ó Zeus, pára lá com isso!


Sabes bem que ….

 

- Bem m’ǿu finto! – interrompeu.


Quero mostrar-te que apesar de tu e toda a gente «andardes» a falar da franqueza transmontana ‘inda nem destes bem conta de quanto vale.


Como «vês e podes ver» ela consola os “terrenos” e regala os “celestenos”.


Chega-te pr’àqui. Afinfa-lhe. Esta Linguiça é de SEGIREI, aquela é de AVELELAS, a outra é de SOUTELINHO. O Salpicão da Língua é do CANDO; o outro é de VILAR DE IZEU.


Chega-lhe! ‘Inda tens muito caminho pela frente!

 

Bem, lá fizemos «o sacrifício» de βotar uma pinga a cada fatia e rodela das proβações.


E vós já saβindes como são estas proβações ….


-Atão. E das cheias?! Que me dizes? - pergunta-nos Zeus, com ar trocista

 

-Cheias?!


Cheios andamos nós, durante todo o ano, das palermices, idiotices e cretinices dos que, a troco da conversa fiada de zelarem pelo destino da Nossa Terra, nos dão cabo da paciência e da vida - retorquimos.

 

Pinga daqui, rodela dacoli, carolinho dali, o tempo corria e Zeus falava:


-Bem! É mais que sabido que o vosso «Pinóquio», primeiro Ministro, claro, é um traficante de aldrabices e trampolinices.

É um daqueles reles transmontanos que vos envergonham.


Serve-se das Gentes e do Reino onde nasceu despudoradamente.


Ainda há dias vos mandou p’raí dois lacaiozitos anunciar-vos que quando vos rouba está a dar-vos.


Destroem os Caminhos-de-Ferro, fecham importantes Serviços Públicos, desprezam o Património Histórico e Cultural, constrangem os cidadãos à emigração (qualquer dia, pela aragem que vai por aí, até os empurram para a clandestinidade!), e amaldiçoam a vida dos velhos, dos doentes e dos fracos.


Lalões autárquicos e Deputados e Ministros jagodes a precisarem de uma glossite aguda, a ver se aprendem a dobrar a língua e a mente para mostrarem mais respeito pelas PESSOAS, e muito especialmente pelos que vivem e labutam no seu Reino Torgueano.


Naquele Postal do Blogue “CHAVES”acerca das Barragens está bem patente a sacanice (mais uma!) que querem fazer aos Transmontanos.


A grande porra é que a maioria desses vossos presidentezecos de Câmara se abastardam facilmente e com toda a ligeireza. Claro que contando com a colaboração e o comprometimento da seita de lalõezinhos e palermóides politicastras que se armam ou travestem de Oposição.


É bom de ver que com a abrilada (dizer 25 de Abril é outra conversa!), «a arte de governar os Povos» fundiu-se e confundiu-se com a arte de engrampar, institucionalizou-se a “Venda da banha da cobra”, entronou-se a hipocrisia.

A golpada, a desfaçatez e a manigância enxotaram os Políticos e multiplicaram os mandingueiros na administração da Coisa Pública.


Endrominado durante tantos séculos, catequisado sob o dogma dum salvador - seja ele Batistelha, Sebastianeiro, Socratintas ou qualquer outro pantomineiro sempre à espreita - o vosso Zé Pagode continua ensosso, convencido que passará pelo buraco da agulha e que as misérias que «grama» são certificados de garantia de entrada no céu dos pardais e de outros animais.


E, regalados da vida, lá pelos claustros ou jardins de Belém e de S. Bento, pelo salão dos Passos Perdidos, e pelas vielas das vaidades municipais, os sevandilhas vão rindo, rindo, e exclamando:


- valentes camelos!!!


Até que um dia alguém lhes acerte o passo!

 

Zeus está-se a «Transmontanizar», lá isso está.


Não só aprecia coisas boas da NOSSA TERRA como as arrecada. E já usa umas palavritas à moda da Normandia Tamegana.

Eram horas de irmos a caminho de Samarcanda.

 

 

Tupamaro

 

 

 



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Sexta-feira, 30 de Abril de 2010

Discursos Sobre a Cidade - 96 - Por José Carlos Barros

 

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Dois sonetos

sobre os impossíveis regressos

 

um poema de José Carlos Barros

 

http://casa-de-cacela.blogspot.com

 

 

Às vezes é preciso regressar às coisas simples:

às folhas das árvores do jardim das freiras

ou à sombra estendida na sissi em dias de feira

a beber uma taça de branco por entre guarda-chuvas

 

pendurados nas costas das cadeiras e chapéus

de feltro a um canto da mesa deixando poisar

a meia-dúzia de pastéis; às edições do notícias

de chaves a duas cores e aos matraquilhos

 

e às máquinas de jukebox do tabolado e ao labirinto

das estantes do silva mocho onde chegámos

a suspeitar que havia de tudo; e aos táxis pretos

 

e verdes olhando-se da escadaria do quiosque enquanto

em duas caixas se puxava o brilho aos sapatos

fazendo estalar um pano e depois ouvindo-o ranger

 

pela fricção num muito rápido e mágico movimento

oscilatório. Às vezes é preciso regressar às coisas

simples: ao jogo do sapo no faustino ou às girafas

da romana e ao foyer do cine-teatro no intervalo

 

do expresso da meia noite com o brad

davis que por muito tempo foi o nosso herói muito

além do sport ou da ibéria e da rua de santo antónio

e das cidades todas de espanha e do estrangeiro. E regressar

 

(sobretudo) ao que não se diz num poema

quando a exaltada juventude nos levava por onde

mais os erros e os perigos se desenhavam.

 

Oh mas quem me dera regressar verdadeiramente

e saber o que sei hoje para repeti-los todos:

todos os erros e todos os perigos.


publicado por Fer.Ribeiro às 01:03
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Sexta-feira, 23 de Abril de 2010

Discursos Sobre a Cidade - 95 - Por Gil Santos

 

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A LAVADURA

 

Seriam umas quatro da tarde. O sol de Março, coado por cirros de cristais de gelo, ainda não fazia quente aquele início da Primavera. Soprava no Planalto um vento galego gelado.

 

— Parece que pariu uma galega, Ti Maria! — Grunhia o Adelino Beiças, tralhado de frio, à passagem pelo forno do povo. Vinha de cá botar o gado do lameiro do Belão.

 

— Aqueça-se aqui um cibo home!


Que não podia, que tinha ainda muitos afazeres.

 

Era véspera de Ramos. Tempo de cozer os folares para a Páscoa (1). Este ano, a festa da Ressurreição era temporã. Ninguém gostava muito que assim fosse, pelo temor que causava o adágio: “Páscoa em Março, muita fome e muito mortaço”. Mas nem por isso deixava de se cozer o bolo típico do Planalto, o folar. Fazendo jus à tradição, botava-se a massa recheada por nacos de carne gorda da pá nos alguidares de barro preto de Nantes que, corados pelo forno de lenha, faziam a alegria e a fartura das casas, na benzedura do compasso. Porém, o forno tinha de ser escalado. A aldeia era grande e todos faziam questão de cozer por essa ocasião.

 

Nesse dia, calhou a vez à Maria Pataloa. Mocetona casada e ainda na casa dos vinte, começara a lida cedo. Uma grosa de ovos de galinha pedrês, meio salpicão, umas três linguiças, um troço bom de carne da pá, um cibo de presunto e uns doze quilos de farinha triga, os ingredientes. Era preciso bater bem a massa para os fazer azadinhos, o que não era tarefa muito fácil. Assim, invocou a ajuda da comadre Quinhas. Pelas duas da tarde os folares já fermentavam no estendal contíguo à masseira. Acenderam o forno com umas fronças secas de giesta piorneira para que pegasse bem. À porta, dois carros de lenha cortada na véspera pelo Zé Patalão haveriam de pôr branco o tijolo burro da fornalha, sinal de que estava pronto para cozer. Pelas quatro da tarde, lá entraram os folares no forno, com a benzedura do costume: “Cresça o pão no forno e os bens pelo mundo todo. Um Pai Nosso e uma Ave-Maria, cresça o pão pela freguesia.”


Ao canto da casa do forno, era costume estar um balde de folha com lavadura que servia para recolher as aparas da carne e as sobras da massa. Naquele dia estava cheio. Água, farelo, barredura dos pratos e os cibos das aparas da carne dos folares, davam à mistela um aspecto que só os dois requitos da Quinhas, cevas no próximo Natal, haveriam de gostar.


Pelas seis da tarde estavam cozidos os folares. Ficaram bons! Exalavam um aroma irresistível que aguçava o apetite a qualquer um. Às tantas apareceu por lá a Rosa Milheira, uma moçoila de vinte e cinco frescas primaveras, casada há cinco meses e prenhe de sete.


— Ó Ti Pataloa, vossemecê desculpe, mas cheirou-me tão bem aos seus folares, que me deu a gana de lhe pedir um cibo! É mais para o menino não nascer de lábio rachado ou eu não mober, não é para mais nada!.. Andar de apetites, sabe vossemecê como é!..


Claro que a Maria Pataloa não queria responsabilidades nem pesos na consciência. Vá que acontecesse alguma coisa má à vizinha e depois o que haveria de dizer o povo?!..


— Claro Rosinha, não seja por isso! Toma lá um carôlo deste mais cozidinho.


E lá foi a moça toda contente a rilhar o pedaço do folar.


— Ó comadre, olhe que nunca acreditei muito nestes desejos das grávidas — comentava a Quinhas com desdém.


— Vá-se lá saber, pelo sim, pelo não!..


— Não lhe apeteceu a ela um bocado da lavadura dos reco, ali do balde!.. Ora essa, está bem está!..


Isto passou.


Daí a uns bons cinco anos a Quinhas emprenhou. Foi uma alegria uma vez que as más línguas já diziam, à boca pequena, que para não engravidar em três anos de casada é porque era matchorra!


A Quinhas não cabia em si de contente. Peneirava-se pela freguesia de bandulho empinado para que não restassem dúvidas do seu estado. Que todos vissem que afinal era boa fêmea!


Andaria de seis meses quando, numa tarde, foi visitar a comadre Pataloa. Entrou casa adentro e proferiu a saudação da praxe:


— Nosso Senhor a salve, comadre!

— Salve-a Nosso Senhor.


Conversa puxa conversa e a atenção da Quinhas cada vez se fixava mais num canto da cozinha onde era costume estar o balde da lavadura. Bem tentava desviar de lá o interesse, mas não o conseguiu por mais que se esforçasse!

Não resistiu.


— O Ti Maria, vossemecê desculpe…


Dirigiu-se ao balde e desviando com as mãos trémulas o farelo que boiava sobre a gordura da tona, espetou as ventas no líquido e sorveu duas boas goladas para espanto da comadre que, de olhos esbugalhados, nem queria acreditar!


— Foi castigo! — Pensava a Pataloa aturdida!

— Ai comadre, não resisti! Apetites das grávidas, sabe como é!..


A verdade é que daí a uns três meses nasceu o pimpolho. Um rapagão! Forte como o granito do Brunheiro e escorreito como um touro de cobrição.


Vá-se lá saber se foi da lavadura ou se não foi!


O certo é que daí em diante as comadres passaram a crer piamente nos desejos das mulheres grávidas. Bem… não seria para menos!

Ele sempre há cada uma!

 

Gil santos

In “Ecos do Planalto – estórias”, adaptado

 

 

 

(1) - Para se saber quando calhava o Domingo de Páscoa, após o Entrudo contava-se cada Domingo assim: Ana, Magana, Rebeca, Susana, Lázaro, Ramos, na Páscoa estamos.


publicado por Fer.Ribeiro às 00:30
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Sexta-feira, 16 de Abril de 2010

Discursos Sobre a Cidade - 94 - Por Blog da Rua Nove

Texto de Blog da Rua Nove

 

(X)

Afastando-se das imediações do forte, o inspector Bento entrou no Bacalhau vindo do Bairro Aliança e preparou-se para começar a descer a Rua de Sto. António. Nascia o dia. Uma manhã fresca de primavera, prometendo um céu sem nuvens. Lembrava-se das manhãs de nevoeiro e geada que anos antes encontrara no inverno, e a cidade pareceu-lhe outra. A pérgola do jardim fez-lhe chegar o aroma das glicínias. Quase lhe apeteceu assobiar despreocupadamente. A rapariga era um pedaço. Pena era a criança, mas sempre serviria para lhe evitar outras complicações.


Por momentos esquecera o assunto que ali o trouxera. Aprumou-se quando se apercebeu que já havia gente nas ruas e começou a caminhar mais devagar. Queria dar a impressão de vigilância apertada e atenção redobrada. Queria que o vissem como alguém que por ali andava àquela hora por dever profissional. Omnipresente e vigilante.


Já deveria ter mais informações à sua disposição. Mas precisava de dormir algumas horas. Quando chegou ao fundo da rua estranhou o largo à sua esquerda. Estava habituado às arvores e ao gradeamento do antigo mercado, à agitação das gentes e aos sons que dali vinham. O Arrabalde parecia-lhe agora uma praça sonolenta, à espera de acordar com a chegada dos oficiais de justiça e as zaragatas barulhentas dos litigantes.


À entrada da Rua 28 de Maio amontoava-se uma meia-dúzia de pessoas, esperando a partida da carreira de Braga. Gente ensonada, crianças aninhadas entre gigas e sacos, um ou outro animal de criação. Entrou no hotel quando alguns hóspedes já saíam. Todos o saudaram tirando o chapéu, mas ninguém parou para o cumprimentar. Dirigiu-se para a sala de refeições, onde tomou o pequeno-almoço numa mesa de canto. Sozinho, com olhares e ademanes de afectação e superioridade.


Subiu depois para o quarto, cruzando-se com as criadas que tratavam das arrumações. Deitou o olhar a uma, deu um piropo a outra. Sorridente e seguro entrou na habitação. Perdeu o sorriso quando se apercebeu que alguém lá tinha estado e que havia um envelope sobre a mesa.


(continua)

 



publicado por Fer.Ribeiro às 00:36
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Sexta-feira, 9 de Abril de 2010

Discursos Sobre a Cidade - 93 - Por Tupamaro

 

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CONVERSAS COM ZEUS


-X-

“Reparaide”



 

Zeus telefonou-nos a lembrar-nos para não nos fazermos esquecido e cairmos na maldade de não lhe enviar um carolinho de Folar.

 

Malandreco! Pois até nos constou que tinha enviado Deméter, disfarçada de ceifeira alentejana, a Valpaços, no fim de semana último - o vento fizera-lhe chegar às Cancelas do seu Jardim um Post(al) «pirésico» com ilustração da XII Feira dos Sabores lá das “Encostas do Rabaçal”.


Sabendo da «queda» de Dioniso para as Trincadeiras, Zeus deixou que aquela jeitosa prima de Deméter, e que traz o Niso pelo beicinho, seguisse na comitiva, com a recomendação de não se esquecer de umas garrafitas de Touriga Tinto.

 

Assim avisado, dissemos a Zeus que teria sido bem melhor ter vindo à Feira de “Alguns Sabores e Nenhuns Saberes” de CHAVES!

 

-Estás louco ! - gritou-nos Zeus.

 

Se aí fosse, então é que ordenaria a Hefesto a feitura de um molho de raios para partir uns estuporzitos que continuam a não só consentir como a fomentar a degenerescência dessa bendita terra que os meus afilhados Vespasiano e Trajano enobreceram.


E se por aí continuam com tanta asneirada ainda acabarei por consentir que qualquer ajudante de Hefesto aí monte a sua forja.


E olha que com esse plano socretino das Barragens é o que acabará por acontecer.


Vê lá se convences esses «cromos» travestidos de edis normando-tameganos a ganhar juízo e a baterem o pé (ou apertar o papo) aos troca-tintas que governam desde Lisboa.


Até me sinto grego com tanta merdice que encharca o teu País.

 

-Eih! Zeus! Olha que essa «gaijada» é «fixe». Só quer o bem do «Nosso Povo» ao fazer pela sua própria vidinha!

 

Sabes bem que a água é o petróleo do futuro. Repara que um quartilho da de Vidago, de Caralhelhos ou das Pedras custa mais do que um litro de gasoil!

 

Assim, toca de fazer grandes armazéns para reservas de água estratégicas.

 

Qualquer dia faz-se um guerrazita no Grande Deserto Australiano ou na Mongólia e, zás! … lá vêm uns Baris de Ma$$a para…


-Bem m’ou finto! – atalhou Zeus.

 

(“Reparaide” como «o gaijo» está apanhar o «valdantês». Schiu!).


Perante as notícias do Blogue “CHAVES”, até é de estranhar não aparecer por ali um lalãozinho a declarar ter «pena, muita pena» por este dizer tão mal do (des)Governo; ou um qualquer «cialista» indignado , clamando que está sempre a ser contra o «p’ogresso» e o futuro.


Perante este plano de mais um mau trato à Região, a Vereação e a Assembleia Municipais fazem há-de conta que nem sabem do que se fala.


É a triste pobreza dessa Terra estar a ser guiada por bonifrates.


Indignam - nos Postais deste Blogue.


Mas as javardices, cretinices (e socratinices) decretadas desde o Terreiro do Paço a denegrir, a empobrecer a Normandia Tamegana não lhes causa o mínimo incómodo. Combinam muito bem com as basófias espúrias e os cúmplices silêncios da maioria de «esquerdalhos» e «direitalhos» que administram os interesses Normando-Tameganos e dos que com dores de qualquer «partidarite» se propõem ao mesmo, com atrevida incompetência e com descarada imposturice e hipocrisia.


Querem lá saber do solene compromisso assumido nas candidaturas, nas campanhas e nas tomadas de posse!


O silêncio dos edis, dos deputados municipais, dos núcleos político-partidários locais, municipais e distritais é bem revelador da insignificância patriótica (amor à sua Terra) das maiorias dessas trupes.


Fiteiros!


A coragem cívica e política guardam-na toda para lamber as botas a quem lhes cheirar poder atirar-lhes com um ossito.

 

- Zeus!!! – gritámos-lhe.

 

Se em vez de «sermonar» enfiasses esses marmanjos todos em séjanas de Fez!

 

Sabes…

(Como foi ele a «chamar» e a conta era ele quem a pagava, deixámo-lo interromper).

 

- Não falta muito para lhes facilitar um passeiozinho “à Panfílio”.


Pode ser que aprendam.


Mas, deixemo-nos destas coisas.


“Alembra-te”, mas é, de me remeteres, a tempo e horas, um FOLARZECO para em me consolar no próximo Domingo.


Já agora, arranja também um cabrito ( já «arranjado»!) daqueles que andam a pinchar ali pela Padrela …ou pelo Alvão!


E como já tens encomendas para te incomodar, despeço-me até breve.


- Tomei nota, Zeus. Mas vê lá se nos fazes chegar, ao menos, umas amêndoas de Moncorvo!

 

 

Tupamaro


publicado por Fer.Ribeiro às 00:17
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Sexta-feira, 2 de Abril de 2010

Discursos Sobre a Cidade - 92 - por Fe Alvarez

 

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AQUEL LLANTO!

 

 

Texto de Fe Alvarez

 

 

 

 

 

- Te lo repito, no quiero nada con la religión.

 

- Perdona, pensé que eras creyente.

 

- Y quien dice que no lo soy, quién!? una cosa es la Iglesia y otra Dios.

 

- Bueno, entiendo, no quieres nada con la presentación oficial de la religión. Sus normas, sus ritos etc.

 

- Para que me entiendas, te contaré el momento en el que me sentí perdida, en una situación que me llevó a un caos moral y busqué un apoyo, una mano, que me sacase de aquel mar de dudas, me aliviase el peso que cargaba, por momentos pensé perder la razón, pero... en fin mis pasos tomaron el camino equivocado, el apoyo, el consejo, el bálsamo que me aliviase, no vino de donde lo busqué, solo el tiempo que termina por curarlo todo, me concedió la calma, aunque también hé de decir que en ese momento, en el que vi tambalerase la base de mi mundo, reaccioné y tomé mi camino, acertado o no, no me arrepiento y en ese momento vino también la necesidad de apartarme de la religión establecida, flexible por intereses y férrea con verdades trasnochadas. Tendré que remontarme a mi juventud; si tienes tiempo...

 

- Te escucho.

 

- Todo empezó cuando llegó el momento de que me casasen, lo digo así pues algunas veces pienso que me casé casi por imposición, aquello parecía un decreto ley. No quiero decir con esto que mi marido no me gustase, no, pero fue algo así: "eres una rica herdera y tienes que buscar a alguien con buena posición" casi se me forzó a escojer y allí estaba él con dinero, guapo, buen mozo, con pretensiones a agrandar su hacienda, seguramente aleccionado, como lo fui yo, imaginandose un semi-dios, hijo único, consentido y caprichoso y en realidad y como el tiempo demostró un perfecto gañan. Y por el otro lado, yo, con todas las tonterias que nos aporta estar en la edad del pavo, sin alcanzar las responsabilidades de una vida a dos, tonta e ilusionada, todo me parecía un cuento de principes y princesas que llevaría el fin de: "fueron felices y comieron perdices". Como nos engañan en los cuentos...! ponen el final, cuando en realidad es el principio de una vida muy distinta a la que se llevó, con una niñez entre algodones, una protección extrema y después de esto te lanzan sin piedad, como lanzaban a la arena a los cristianos en la Roma Imperial. Hoy, en la distancia lo analizo y veo la colección de mentiras, errores, casi locuras, en que todos tomaron parte, sin excluirme, pero antes no lo veía, tenía demasaiados pájaros en la cabeza, pero los que ya estaban de vuelta en la vida, por qué seguir representando una comedia? Qué disparate! Menos mal que hoy en día la gente es más consciente, aunque también duran menos los matrimonios, pero si duran a expensas una vida de sacrificios y tener que aguantar como un titanes, aparentando que todo está bien, no lo veo tan mal.

 

Después de los primeros tiempos, en los que no recuerdo ni vagamente la cacareada "Luna de miel" empezó el día a día y en poco tiempo ese día a día fue convirtiéndose en un martirio, llovian los golpes, las malas palabras, los gestos, las faltas de respeto, todo un ramillete de despropósitos, incomprensibles, me sentí engañada, atrapada y perdida, al principio, callé por verguenza, no podía creer el que cuento de hadas se transformara en aquel mundo de terror, siempre como disculpa, había una caida una puerta un tropezón y la conocida disculpa " me caí por las escaleras" cuando los moratones eran múltiples y evidentes, veía las miradas de incredulidad y silencios que gritan, no se oyen con los oidos, se sienten en el corazón, en el plexo solar, todos toleramos y consentimos tamaña ignominia; llegaron los hijos, seguian los malos tratos, cualquier cosa servía como disculpa para golpearme, algunas veces bastaba una mirada un mínimo gesto, que un niño llorase, que la comida no estuviese como él exigía, que una empleada no realizase su trabajo como él imponía, recuerdo un día estando en el séptimo mes de uno de mis embarazos, salí al patio de casa cuando él llegaba, después de una noche de farra, aún hoy no llego a comprender el motivo, no lo había, empezó a golpearme brutalmente, entre improperios, acusaciones y amenazas de muerte, después me arrastró por el pelo hasta el tanque, me metió la cabeza bajo el agua, intentando ahogarme, luché por mi vida y por la de mi hijo, desesperadamente, pero él era más fuerte, una empleada lo sorprendió en su locura e intentó impedir que me matase, lo logró pero consiguió que tembién le tocase a ella parte de su ira, la cabeza me quedó llena de bultos los brazos , las piernas y el tronco denotaban los derrames internos, lo peor era el dolor que me quedó en el fondo del vientre. Dos días después perdí a mi hijo. La vida seguía y mis niños me necesitaban.

 

Y esa era mi vida entre amarguras y golpes, las alegrías venian con los hijos, que aunque crecian en este medio hostil lo hacian como si aquello no fuese con ellos, o al menos lo aparentaban, solo temía que los marcase de por vida; con su aparente ignorancia encontraron una terapia, los pequeños son fuertes, tienen defensas para sus fantasmas y miedos y eran muchas las veces que captaban el ambiente tenso, aunque eran ajenos a la barbarie del padre. Con ellos era por veces indiferente, otras algo cariñoso y aunque pocas veces también eran víctimas de su agresividad. Cuando el progenitor no estaba en casa, jugaban, reian, saltaban como cualquier niño de su edad, llegaba el ogro y los pequeños parecian volverse invisibles. Menos mal que sus ausencias iban aumentando.

 

Después había las amantes, que no se presocupaba en esconder, la humillación, el dolor, al principio pensé, bueno si tiene donde entretenerse me dejará tranquila, craso error, nada cambiaba en casa, todo seguía igual, por momentos peor. Sus frustraciones, sus locuras o sus miedos, siempre, siempre desembocaban en mi. Tenía que aguantar, era lo que me decían, "el matrimonio es para siempre", ten paciencia... son los ardores de la juventud... es una etapa... todo pasará etc. etc. Mentira, todo una cochina mentira. Son tan interminables los días cuando se sufre... y las noches, esas es preferible ni nombrarlas.

 

Hubo una temporada en que vino, para ayudarme con los pequeños, una ahijada, la madre accediera con agrado para así aliviar la mermada economía de su casa, quedó estipulado que yo la vestía la alimentaba y le depositaba un dinero en una cuenta para cuando fuese mayor, la muchacha era muy trabajadora, amable con los niños y ellos la adoraban, todo parecía ir bien, demasiado bien, por eso cuando me dí cuenta que estaba embarazada, ví con claridad lo que había pasado, este era el motivo de disfrutar una etapa de bonanza, por eso mi marido no me pegaba tanto, ante la pequeña quería aparecer como un buen hombre y poco a poco la sedujo. Pensé que el mundo se me desmoronaba, yo que pretendí ayudar aquella familia, la enveredara hacia una situación amarga. En aquellos tiempos, tener un hijo siendo soltera, era casi un delito, una mancha que marcaba de por vida.

 

Pensaba como comunicárselo a sus padres, temía el momento y entonces noté su ausencia no estaban en casa, en mi cabeza se me instaló una alarma, qué representaba aquella escapada! pensé en mil posibilidades, al final de la tarde una llamada telefónica, esclareció el motivo, la había llevado a Porto para abortar y como las cosas estaban mal yo tenía que ir a una zona determinada del Marão donde me esperarian, me llevaría un amigo que tenía que ir a Porto, nunca supe si era verdad o estaban compinchados. Dejé los niñas al cuidado de los empleados y salí rapidamente. La carretera se me hizo eterna, nunca le vi tanta curva. Allí estaban, en realidad no sé lo que le hicieran, estaba en trabajos de parto, mejor dicho el parto era inminente, hice lo que pude, Dios mío! una niña con aquellos problemas, por culpa de la mala cabeza de un hombre loco, egoista y cruel. Después de poco tiempo nació un niño ( ya era de casi 7 meses) mi marido lo arrancó de mis manos, le dije que lo cuidaría como mío, no quiso razonar ni atender a mis ruegos, mi ahijada no decía nada, estaba con los ojos clavados en un punto perdido del techo del coche. En un último esfuerzo intenté recuperar al bebé, él me empujó y en un impulso lo lanzó al vacío. Qué horror! el pequeño lloraba, me puse como loca, lo golpeé con los puños en el pecho, me abofeteó y me metió en el coche, a la fuerza y volvimos, con el momento fatal repitiésdose en mi mente, una y otra vez, sin descanso y aquel llanto, clavado en el cerebro, me oprimía el pecho y me perseguiría por mucho tiempo, tenía remordimientos, me sentía culpable, me llamaba asesina y no podía dormir. Todas las noches oía aquel llanto, me atormentaba; mis terrores nocturnos me hacian pasar noches sin dormir, me imaginaba a la tierna criatura devorada por las alimañas, destrozada en la caida, pero el llanto, EL LLANTO! ese no cesaba.

 

La niña, para prevenir daños mayores, fue enviada a casa de un familiar, lejos de Chaves, no sé si fue consciente de lo que pasó en aquella carretera. Yo adulta, estaba marcada, qué sería de ella? Aquello me decidió a dar un giro a mi atormentada vida. Antes fui a la iglesia, tenía que confesarme, aconsejarme y quitarme parte de aquel peso. Después de un relato desgarrador, entre lágrimas y suspiros, oigo decir al confesor.

 

- Hija mía hiciste lo correcto, obedeciste a tu marido y lo amparaste.

 

- DIOS MÍO!

 

No me lo podía creer. Y la vida y el cuarto mandamiento? No hubo razonamiento posible, ellos siempre pretenden estar em posesión de la verdad absoluta, eres considerado un ser inferior semianalfabeto en el terreno religioso y no puedes entrar en valoraciones, después de esto no recuerdo si me impuso penitencia, tampoco importaba mucho. Escuchar aquello y seguir? NO, la penitencia me la impuse yo misma, seguir oyendo en el silencio de la noche, aquel llanto durante mucho tiempo y con resignación.

 

El asco llegó como un maremoto, no podía con soportar su presencia, por eso me envalentoné y lo expulsé de mi casa, creo que temió mi gesto determinado, le sorprendió mi actitud, ya no le tenía miedo y así lo comprendió, sin palabras y apoyado en su nueva conquista se marchó. Los hijos y yo seguimos nuestro camino, con mil trabajos, pero tranquilos. Que la paz no puede pagarse con dinero.

 

Y aquí fue donde se torció para siempre el camino que me llevaba a la iglesia. Si no recuerdo mal, no fue Jesús que dijo?: Si tu ojo te escandaliza arrancatelo, si tu mano te escandaliza cortatela. Pues yo me arranqué lo que me escandalizó.

 

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 01:24
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