Sexta-feira, 19 de Março de 2010

Discursos Sobre a Cidade - 90 - Por Gil Santos

 

.

 

CHICO SANTO CRISTO

 

 

Gil Santos

 

— Viva a pátria e chova arroz!.. — vociferava o Chico Santo Cristo quando o desassossegavam.

Oriundo de uma família de renome, Francisco Piçarra, ficou mole do miolo(1) Culpa de um graúdo desgosto. Muito avarento, entesourava toda a riqueza no xaragão(2) de palha centeia em que dormia. Ganhava bem no negócio de passamanarias que geria na rua das Longras. Tinha porém o vício de, pelo final da tarde e após o encerramento da loja, se enfrascar, quase todos os dias, na Adega do Faustino. Era um inveterado copofónico (3)

Certa ocasião, o Fausto Vaqueiro, bancário do Sotto Mayor e colega da copofonia,(4) conhecendo-lhe a manha da avareza, convenceu-o a depositar a riqueza no seu banco. Que temesse os incêndios, os ratos, ou dos larápios. Que qualquer desgraça o podia pôr na miséria! Que pensasse bem!.. Depois de muito bater no ceguinho lá o fez crer no milagre da multiplicação dos rendimentos.

Foi para casa. Durante o fim de semana não fez mais nada que não fosse registar numa longa lista, o número de série de cada uma das notas que retirava do enxergão. Na Segunda-feira, foi ao banco, com um saco de pano repleto, entregar o papel (5) ao Vaqueiro. Depositou-lho a prazo em regime de juro composto.

A coisa passou.

Daí a uns meses, beberricando calmamente um traçadinho(6) na taberna da Travessa do Olival, para matar a sede de uma quente tarde de Verão, alguém o chamou à atenção:

— Olha lá ó Chico, tu não puseste o carcanhol(7) no Sotto Mayor?

— Pus. Está seguro e rende juros!

 

— Pois, fizeste uma boa merda! Meteste-o no cu ao Vaqueiro e agora as tuas notinhas andam por aí à cria nas mãos de quem calha! Vês aquele magano a pagar a rodada, vai fazê-lo com uma das tuas notas!

Ficou em pânico… Foi-se ao balcão…

— Ó Eduardo, mostra-me essa nota de cem que acabas de encafuar na gaveta…

Puxou do bolso o extenso rol dos números de série e conferiu…UG 02913!

Não é que a puta da nota fazia parte do cadastro!..

Afinal sempre era verdade, as suas notinhas andavam por aí ao Deus dará,(8) em vez de estarem guardadas no cofre do banco.

— Que gastassem o que era deles, esses filhos de um cão.

O cabrão do Vaqueiro havia de lhas pagar!

Foi-se ao banco e fez um escabeche do arco da velha. Que queria as suas notinhas uma por uma…

Perante a intransigência do homem em manter o depósito, tiveram que lhe devolver o dinheiro até ao último tusto.(9) Ainda assim não foi fácil convencê-lo a aceitar notas que não eram das suas!

— Que se fodesse o Vaqueiro a mais os juros. O papel havia de ir novamente para o xaragão. As pulgas e os percevejos não iam ao Faustino!

Contudo, aquela ideia do incêndio, dos ratos e dos gatunos não lhe saía da cabeça.

Eureka!

Foi ao Moucho e comprou uma lata de chapa. Daquelas que os merceeiros usavam para meter o café moído. Embrulhou as notas num plástico duro. Encheu a lata com elas, muito bem acamadinhas. Tapou-a com a sampa (10) redonda e selou-a com cera derretida para que não entrasse a humidade. Procurou no quintal um lugar maneirinho para a enterrar. Cavou um calabouço de metro e meio e encafuou-a lá. Aterrou. Por cima colocou um grande calhau, para marcar o sítio. Sentiu-se aliviado. Tinha o pé de meia (11) a salvo de bancos, incêndios, ratos e ladrões.

 

Passados uns três anos, o senhorio da sua casa quis aliená-la. Ele comprá-la. Estava em situação privilegiada para negociar e além do mais tinha capital. Discutiu o preço. Marralhou (12) quanto pôde. O negócio foi fechado em trezentos e cinquenta contos de réis, a pagar no acto da escritura. No dia anterior a esse acto formal, foi-se ao quintal de enxada em punho. Vai de abrir o buraco. Lá estava o tesouro. Intacto?..

A Lata, apesar de enferrujada, mantinha a forma original... Porém, quando retirou a cera e a destapou, das notas só farelo!..

Ficou sem pinga de sangue!

Sem dinheiro e desfeito em lágrimas, abortou o negócio e mudou de casa. Guardou religiosamente as cinzas, como se dos restos fúnebres de um ente querido se tratasse.

Daí por diante passou a fechar mal a gaveta.(13) Refugiava-se no vinho para esquecer. Era cada cadela!

Apesar de tudo, ficou-lhe uma ténue esperança num milagre do Santo Antoninho, de quem era afanado devoto. Os amigos convenceram-no de que rezando ao advogado das coisas perdidas, era capaz de se ajeitar qualquer coisinha! Então era vê-lo, cheio de fé, ajoelhado todas as tardes, antes da missa no Faustino, a debitar o responsório,(14) na igreja de Santa Maria Maior.

 

“Se milagres desejais, recorrei a Santo António

Vereis fugir o demónio e as tentações infernais.

Recupera-se o perdido.

Rompe-se a dura prisão,

E no auge do furacão cede o mar embravecido.

Pela sua intercessão, foge a peste, o erro, a morte,

O fraco torna-se forte, e torna-se o enfermo são.

Todos os males humanos se moderam, se retiram,

Digam-no aqueles que o viram, e digam-no os paduanos.

Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.

Rogai por nós, bem-aventurado António

Para que sejamos dignos das promessas de Cristo”.

 

Nunca resultou, para sua infelicidade e das notinhas que continuaram em pó.

 

Morava, agora, para as bandas de Santa Cruz. Para além das tardes, passava também as noites a beberricar na dita Adega. Quando a altas horas regressava a casa, ao passar perto do Libório, numa encruzilhada que tinha umas alminhas iluminadas noite e dia por mortiças velas de estearina e decoradas com desfolhadas rosas de plástico, não deixava de se descobrir e cumprimentar, mui respeitosamente:

— Boa noite alminhas!

As alminhas quase sempre retribuíam:

— Boa noite Santo Cristo. Que Deus tenha de ti dó e te ampare por esses caminhos da vida!

 

Uma noite, depois de enfardar uns valentes copázios, acompanhados de umas rachas de bacalhau da peça para puxar à pinga, não mediu a distância a uma candeeiro de iluminação pública e esbarrou-se escontra ele. Esmurrou o focinho todo!

— Pouca sorte!

O candeeiro não se queixou.

À medida que o sangue se soltava das ventas, ia sendo limpo pelo lenço de cinco pontas.(15) Chegou a casa já com o sangue tralhado (16) pelo frio da geada. Foi para a casa de banho, lembeu-se (17) e foi curar a cardiela (18) para a cama. Na manhã seguinte, sua esposa Pimponata, deu com um penso rápido colado no espelho, por cima do lavatório.

— O que teria acontecido?

Só percebeu o fenómeno quando viu o nariz do marido todo esmurrado!

— Borrachão!..

 

Numa outra ocasião meteu-se-lhe na cachimónia (19) que haveria de voar como os pássaros. Documentou-se sobre as técnicas de voo e os truques da aeronáutica. Pareceu-lhe tudo muito complicado. Mas, um dia qualquer, nas suas investigações, leu um texto da mitologia grega sobre a lenda de Icaro.

 

“Icaro e seu pai Dedálo, presos num labirinto na ilha de Creta, decidiram construir um par de asas para cada um, para se evadirem. Recolheram penas de gaivota e cera de abelha e montaram admiráveis asas.

Dedálo aconselhou o filho a que não voasse muito alto. Que não se deixasse entusiasmar com as belezas que iria admirar das alturas. Icaro cegou-se e rapidamente esqueceu o conselho de seu pai.

E Subiu, subiu, subiu…

Próximo do Astro Rei, o calor fez derreter a cera que prendia as penas.

As asas desfizeram-se e Icaro, vítima da sua soberba, estatelou-se sobre o mar Egeu.”

 

Ora, o Chico Santo Cristo sonhava voar como Icaro, mas não tão alto que pudesse cair e esbandalhar-se.(20) Passou meses à volta dos galinheiros e dos pombais dos vizinhos à cata de remiges. Quando lhe pareceu que já tinha as suficientes, construiu uma estrutura em madeira balsa e prendeu-lhe as ditas. Asas perfeitas! Encaixavam nos braços com umas correias de couro.

De onde se havia de atirar?

Das muralhas do castelo? Não, tinha lá a Infantaria.

Da torre de menagem? Não, era muito alta.

Do Forte de S. Neutel? Não, era longe.

Do de S. Francisco? Também não, tinha lá a Cavalaria.

Um sítio azadinho era a capela do Senhor do Calvário em Santo Amaro.

Dito e feito!

Um domingo prantou-se nas traseiras da dita capelinha e de cima do muro amandou-se para o infinito celeste…

Não é que voou mesmo!.. Para os arames das latadas dos quintais, cinco metros abaixo.

Esconchavou-se (21) todinho! Ficou tal qual o Santo Cristo no madeiro. Nomeada que lhe ficou.

 

Mais avançado na idade, a maluqueira deu-lhe para a rima.

Fazia poesias que recitava para os amigos nas tertúlias vinhocas.

Entre muitas, retive esta, que tinha o propósito de retratar o seu fado:

 

À meia noite fui pensado

À uma hora nascido

Às duas fui baptizado

Mais valia ter morrido!

 

Às quatro andava à cria

Às cinco assentei praça

Às seis era cada nassa

No quartel de Infantaria

 

Às sete horas tive filhos

Às oito tive cadilhos

Às nove fiquei maluco

E às dez já estava caduco

 

Às onze horas me finei

Ao meio dia enterrado

A sentença do S. Pedro:

- Pr´ó inferno excomungado!

 

Viva o Santo Cristo e todos aqueles que sonhando voar, fabricam asas de cera!

 

***********

 

(1) – Com pouco juízo

(2) – Colchão

(3) – Bebedor de vinho

(4) – Dos copos

(5) – Dinheiro em notas

(6) – Vinho misturado com gasosa

(7) – Dinheiro

(8) – A sorte

(9) – Tostão

(10) – Tampa

(11) – Poupança

(12) – Discutir o preço

(13) – Diz-se de quem não tem os cinco litros (cinco sentidos?) bem aferidos.

(14) – Responso – oração

(15) – Mãos

(16) – Estancado

(17) – Limpou-se

(18) – Bebedeira

(19) – Cabeça

(20) – Desfazer-se

(21) – Partiu-se

 

 

 

 


publicado por Fer.Ribeiro às 01:53
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