Sexta-feira, 12 de Março de 2010

Discursos Sobre a Cidade - 89 - Por blog da Rua Nove

Texto de Blog da Rua Nove 

 

(IX)

 

Num impulso, o inspector deixou o clube, não ouvindo as boas-noites do barman nem reparando no sorriso irónico que acentuava aquelas palavras.

 

Viu ao longe a silhueta que desejava, subindo a Rua Direita. Iria certamente pelo caminho mais plano, seguindo pelo Anjo e pelo Bacalhau, evitando assim as duas ladeiras que cruzavam a Rua de Sto. António. Mesmo ao longe, os braços levantados para segurar a  criança mostravam umas ancas generosas e deixavam adivinhar uma cintura fina.

 

Acendeu um cigarro e tossiu levemente. Por entre o primeiro fumo, notou que ela se voltara e o vira. Pareceu-lhe que abrandara o passo. Já no Bacalhau voltou-se novamente. O olhar interrogativo que perpassara por entre os longos cabelos acabou por desaparecer, oferecendo-lhe o rosto agora um leve sorriso.

  

Seguiu-a até à Lapa. Aí viu que se dirigia para uma casa da muralha, subindo umas estreitas escadas de pedra. Morava num primeiro andar. Aguardou que entrasse, enquanto acendia outro cigarro. Viu as luzes que se acendiam e o seu vulto passando de janela em janela.

 

O ar cálido e o silêncio da noite fizeram-no olhar para o céu, à procura da lua. Em vão. Deveria ser noite de lua nova, pensou. Sim, disse para consigo, sim, a última lua cheia havia sido a 25 de Abril... Era uma das suas manias obsessivas. Decorava datas e ocorrências registadas em publicações como se fosse editor de almanaques. Alguns subalternos, em conivente segredo, até lhe chamavam o inspector Borda d'Água.

 

Quando olhou de novo para as janelas, viu as luzes apagadas, embora lhe parecesse que um vulto se movimentava ainda pela casa. Notou depois a ténue luz que se espraiava pelas escadas. E viu a porta aberta. 

 

"Sei o que fazes", foi a única saudação que recebeu ao entrar. Surpreendeu-se mais com o rosto do que com o desassombro da rapariga. Era tão jovem! As mãos que se estendiam apertaram as suas, até que mãos, braços e corpos se estreitaram num abraço.

 

Acordou de madrugada com um choro de criança. "Tenho de ir amamentar o bébé", sussurraram-lhe ao ouvido. Quando regressou, a rapariga  encontrou a cama vazia.

 

(continua)

 


publicado por Fer.Ribeiro às 01:37
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