Sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010

Discursos Sobre a Cidade - 84 - Por Gil Santos

 

 

 

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Cantigas ao Desafio

 

As noites de Inverno em Trás-os-Montes são muito mais longas do que em qualquer outro sítio. Logo que o sol se esconde, começa a gear e ainda a hora da ceia vem longe já o carambelo enche de diamantes os galhos das árvores e os beirais dos telhados. Uma melancolia gelada acompanha a cria que recolhe às cortes e o homem que se escapa, logo que pode, para o conforto do tição. No Inverno come-se do que o Outono pôs no celeiro e espera-se, na calma das horas longas, que amanheça mais favorável do que anoiteceu. O tempo transmontano corre pachorrento, mesmo hoje, apesar de a electricidade encher de luz os mais recônditos lugares, tornando as noites aparentemente mais curtas.

 

Há anos, não muitos, quando as noites gélidas eram alumiadas pelas candeias de petróleo, os homens consumiam as horas do serão tagarelando à volta de um canhoto de carvalho que ardia tranquilamente na lareira dos casebres. Aproveitavam para botar contas à vida, para lamentar a má sorte ou para contar histórias de mouras encantadas ou de lobisomens, muito gastas e com finais quase sempre felizes. Outras vezes juntavam-se na casa do forno, se o nevão o permitisse, consumindo lugares comuns e o mais das vezes ausência de novidades. Uma vida triste!...

 

Na casa da Ti Emília Paparrotas tudo se passava nesta calma de sempre. O Ti Adriano era o homem lá de casa ia para vinte anos. Dedicava a sua vida principalmente à agricultura. Porém, tinha jeito para a carpintaria e sempre que podia não renegava a uns magros cobres nesta arte. Tiveram filhos já muito tarde. A Ti Emília até pensava que nunca os teria não fora ter convencido o marido a acompanhá-la à Misarela na foz do Regavão. Passaram lá uma noite fria, mas valeu a pena. Engravidou de gémeos aos quarenta anos. O parto não foi muito normal e se não fosse a Tia Cândida ajudar a dilatar as carnes, já ressequidas, da parideira, os gémeos não teriam vencido. Mas venceram e deram dois rapagões de respeito: O Jorge e o Marcelino. O Jorge aos doze anos já se gabava de fazer a barba, embora reconhecesse que raramente precisava de afiar a navalha! O Marcelino começava já a pintar!

 

Não sendo uma família rica e nem tão pouco remediada, também não se podia dizer que fosse pobre. Vivia do que a terra dava e, não sendo muito, sempre se ajeitava a vidinha com a actividade da carpintaria que ajudava a controlar os calotes na mercearia do Antero.

 

Os rapazes eram dados às artes musicais. De latas faziam bombos, da casca das varas de castanheiro flautas, do colmo tenro do centeio gaitas, das bancas de tripé concertinas e passavam as noites a fingir grandes concertos. Umas vezes cantavam ao desfio com improvisos muito bem conseguidos, para gáudio da família, outras imitavam os cantores da moda dos anos sessenta, que ouviam na telefonia da taberna.

 

Era uma alegria na casa da Ti Adosinda!

 

Uma noite de inspiração, os rapazes combinaram, de aposta, uma desgarrada. Perderia o que primeiro deixasse de rimar. Assim estava combinado e assim se fez.

 

Quadra dum lado, resposta do outro e a coisa foi andando. Por vezes a rima era tão pândega que o Ti Adriano soltava gargalhadas estridentes entre dois golos de maduro tinto que aquecia ao borralho na pitxorra de barro de Nantes. Às tantas, o Marcelino, em resposta a um atrevimento do gémeo, botou a seguinte rima:

 

Boa noite meus senhores

No fundo d’um alguidar meu

O meu pai é serrador

Serrou os cornos ao teu!

 

Mal havia acabado e já a Ti Paparrotas tinha puxado a culatra atrás e espetado um tal bofetão nos focinhos do cantador que o fez afocinhar na cinza da lareira!

 

O rapaz ficou tão atromelizado com o sucedido que precisou de muitos anos para perceber o que justificara aquela tão inusitada atitude de sua mãe!

 

Uma coisa é certa, nunca mais, a partir daí, houve naquela casa cantigas ao desafio. Pudera, é que a Ti Emília tinha um brio incomensurável na sua fidelidade conjugal!...

 

O Ti Adriano não cabia em si de contentamento por ter sido simultaneamente considerado o serrador e a vítima!

 

Também ele precisou de tempo para perceber a atitude da mulher!...

 

 

Gil Santos

In “Ecos do Planalto – estórias” - adaptado

 

 

 


publicado por Fer.Ribeiro às 00:12
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