Sexta-feira, 1 de Janeiro de 2010

Discursos Sobre a Cidade - 79

 

 

O ESPANTALHO

 

     O Ti Balele, de nome próprio Manuel Teixeira, era um homem levado do catrino(1) para a paródia. Filho primogénito de uma família abastada da Veiga e com pouco para fazer na terra, dada a criadagem da casa, dedicava o mais do seu tempo às coisas do intelecto, cogitando refinadas diabruras ou passeando o non far niente(2) pelos recantos idílicos da cidade. Dono e senhor de uma capacidade de imaginação notável, dominava as mais invulgares habilidades: tocava um sem número de instrumentos musicais apenas de ouvido; consertava rádios e mais tarde até as televisões de válvulas; fogões de gás; motores de rega e de automóvel e inventava estranhos arcanhos(3) para os mais inusitadas propósitos! Uma inteligência prodigiosa e rara. Como ele só conheci um tio-avô, o Júlio das Malhadeiras dos Moreiras da Amoinha Nova.

 

     O Balele vestia como um pimpão: chapéu às três pancadas, brilhantina num cabelo às ondas penteado para trás, calça de risca ao fundo tocando levemente num sapato de salto médio com protectores para que batesse o ritmo gingão das passadas nas pedras da calçada, camisa de cashmira(4) de um branco imaculado com colarinhos à teta de cabra, engomados, caindo sobre as dobras do casaco cintado. Aberta até ao peito, a camisa, deixava divisar os pêlos do peito, que quase não tinha. No anelar da mão direita exibia uma chapola(5) com um grande rubi e no da esquerda, uma outra com a bandeira nacional. Quando se pavoneava pela cidade nada ficava a dever ao mais refinado travolta. Nesta figura e a dar no olho, passeava-se de café em café, galando as moças à ganância. Vazava-as com um olhar ladino, despojando-as das sete fraldas e sonhando navegar, perdido, na alva espuma dos seus corpos brandos. Um autêntico marialva!...

 

     Não havia festa nos arredores da cidade em que não estivesse com o seu Volkswagen carocha carregado de amigos. E, quando por Setembro se fazia o arraial de Valpaços, um dos mais afamados da região, carregava a caixa aberta da camioneta Bedford de rapazes e moçoilas e lá subia a serra de S. Lourenço a passo de caracol até que o planalto permitisse engrenar a prise(6) e seguir mais ligeiro. Chegando a Valpaços descarregava num qualquer souto, comprava cinco ou seis melões casca de carvalho e lerpava-os(7) com os amigos ali mesmo sobre qualquer penedo onde estacionasse. Bebia uns canecos do tinto de 15 graus de Santa Maria de Emeres e como um tego bailava, bailava, umas vezes no ringue – pago – outras no terreiro – livre. Às tantas da madrugada admirava o fogo de artifício que era famoso e quando a manhã mostrasse a fuça regressava, mais morto do que vivo. Por Deus querer nunca se esbandalhou(8) a descer, desengatado, o miradouro de S. Lourenço. É que afinal era mais o vinho e o cansaço a guiar do que a própria razão!

 

     Casou, já quarentão, em Vilas Boas. Porém, tanto escolheu, tanto escolheu, que pouco acertou! Calhou-lhe um xaragão mal mexido(9) que pouco tempo o fez feliz. Meia dúzia de anos bastaram para que apartassem fazenda(10) e fosse cada um curtir a solidão para sua banda. Assim se mantiveram até que a morte os ausentou das tropelias desta vida.

 

     Por falar em tropelias partilhemos então algumas daquelas que o fizeram notado.

 

     Andava há tempos com a cisma de que as vasilhas tradicionais de castanho, tairradas(11) lhe azedavam o vinho. Durante anos reparou que a pinga, a partir de meia vasilha avinagrava, apesar de estrafegada no seu tempo. Resolveu então experimentar envasilhar o pitróil(12) numa cuba de cimento. Achava ele que haveria de ficar mais fresco e durar mais tempo sem se estragar. Botou mãos à obra. Passado um mês tinha a dita cuba construída e com capacidade para cinco pipas. Uma obra admirável, não pelo tamanho mas pela novidade que constituía à época. Na primeira colheita encheu-a com o mosto das uvas de Alvites e esperou que o vinho desse de si. Diz o adágio que “pelo S. Martinho se vá à adega e se prove o vinho”. Meu dito, meu feito. Provou-o e como de facto estava uma pinga do caraito(13): cristalina à luz, encorpada, sabor a fruta silvestre!.. É claro que tinha de ser da qualidade da vasilha porque, como noutros anos, também tinha afogado no vinho um pedaço de carne gorda da pá e nem por isso o tintol ficara tão bom. Ao domingo era um corridinho de provadores adega adentro e qualquer deles, por muito biqueiro que fosse, não deixava de, com o órgão do paladar, colorir o ambiente dos apreciadores profissionais com aquele estalido da praxe no fim de um bom copo de tinto!.. Porém, aquilo estava a tornar-se insuportável. Não faltava gente a rondar o caminho para molhar o bico e o medidor exterior do nível da cuba ia assinalando descidas acentuadas. Havia de se fazer qualquer coisa porque por este andar o tintol não teria tempo para azedar e lá se ia a experiência para ver o que aconteceria ao vinho quando a vasilha estivesse menos de meada. Não esteve com meias medidas: fechou-se na adega e com tinta e pincel pintou na frontaria da dita cuba um tufo de cachos vigorosos e uma frase em letras pouco menos do que garrafais: “Beba, não se faça burro! Mas pouco!...” É claro que para os mais esclarecidos a mensagem passou, o pior é que muitos dos seus amigos não sabiam ler nem escrever!... O vinho depois do escrito continuou a mingar mas agora mais d’amodinho(14), contudo, não ao ponto de, pelo menos naquele ano, conseguir verificar se a cuba evitaria que o néctar entoldasse!...

 

     De outra vez meteu-se-lhe na cabeça esculpir um taludo(15) tronco de carvalho em forma de Deus Baco, para decoração da adega. Porém, fê-lo tão abantesma que quando o meteu junto dos tonéis batia com a cabeça nas traves de castanho que seguravam o sobrado, não rimando, para além do mais, com a decoração da adega. À falta de melhor sítio para o colocar, pregou com ele no telhado fronteiro de sua casa, em cima de um pedestal de cimento como se de uma estátua se tratasse. Colocou-lhe entre os braços semiabertos um arco com a seguinte frase: “diz lá quem te bateu?” Nunca ninguém percebeu o que ele quereria com este dezer, nem ele alguma vez o explicou. Talvez o propósito estivesse muito avançado para o entendimento das mentes daquela época!.... O animal era de tal forma feio que espantava e intrigava quem passava no caminho e o admirava. Inclusivamente as mães, para obrigar os filhos a comer o caldo, ameaçavam-nos com o “quem te bateu” e a coisa funcionava!... Ao menos isso!

 

     Noutra ocasião pegou num volumoso livro que andava lá por casa, talvez uma velha Bíblia Sagrada e com a paciência do chinês recortou-lhe as folhas interiores até conseguir espaço para introduzir um arcanho que ele próprio fabricou e que se destinava a prendar a curiosidade de quem o abrisse com um piparote(16) eléctrico do catano! Encapou-o cuidadosamente com um colorido papel de estanho, matéria condutora da energia eléctrica, decorando apelativamente a capa com umas imagens de mulheres seminuas como convinha para atrair atenções. A primeira vez que o usou foi no café Brasil onde havia uns bilhares muito usados pela juventude. Um dia chegou ao estabelecimento um pouco depois do repasto, não estando ainda ninguém por lá a dar ao taco(17). Cuidadosamente colocou o livro sobre o bilhar, armou a esparrela(18) e foi tomar o seu café. Não demorou mais de meia dúzia de minutos sem que dois pimpões, matarruanos(19) que vieram feirar, entrassem filando de imediato as imagens apelativas da capa do livro. Cegaram-se como os pinchos(20) quando vêem o grilo na pescoceira.

 

     – Ele que caraito é isto? – botava o mais afoito!

 

     Num bês, é um libro de gaijas! – constatava o outro.

 

     De gaijas? Bem mou finto!...

 

     Astrebeibos a abririo e vereides(21) a Greta Garbo toda nuzinha – disse o Balele do balcão, para lhes aguçar ainda mais o apetite!...

 

     Atão num astrebemos! – responderam corajosos.

 

     Um deles botou-lhe as unhas e mal o abriu um pouco apenas, o arcanho deu de si e aí vai aço!...

 

     Puta que pariu!.... – berrou surpreendida a vítima largando o livro que, às cambalhotas pelo ar, se esbandalhou escontra a parede fronteira!...

 

     - Arra foda-se que vocemecê agora é que me fodeu! Vá lá p’ro caralho que o recontrafoda, vocemecê mais o caralho do livro, e arrousse-se(22) daqui para casa do caralho entes que le foda as bentas!...

 

     Quem assistiu ao espectáculo riu a bandeiras despregadas. É que galhofas daquelas só na Lapa, uma vez por ano, com as palhaçadas do Cardinalli.

 

     De outra vez comprou, creio que a uns ciganos que faziam negócio com materiais vindos de Andorra, um auto-rádio que montou no seu carocha. Um cantante(23) que fazia as delícias e a inveja dos seus amigos. Tocava os fados da Amália os rocks do Travolta ou as baladas de Nelson Ned, Mari Sol e Roberto Carlos com tanta limpidez que chegava a fazer arrepiar quem as ouvia. Aliás, moçoila que aceitasse ouvir um destes temas só conseguia sair do carro com duas beijocas nas trombas…e se não fosse mais! Mas o rádio tinha um problema que afligia quantos o admiravam: não tinha marca! Cada vez que algum amigo ou amiga admirava o aparelho e o seu desempenho, não deixava de lhe notar o incontornável defeito de ausência de marca. Poderia lá ser, um rádio tão bom e sem marca!... O Balale tanto se encheu daquilo que um dia sentou-se na sua banca de trabalho e desenhou, numa placa de alumínio fino, a marca do rádio, cujas letras minúsculas recortou com uma minúcia de cirurgião. Depois de pronto o trabalho não se distinguia do feito na fábrica. Colou com cuidado e no lugar aprazado a respectiva marca: MERDEX.

 

     Daí por diante nunca mais ninguém ousou sequer reparar que aquele rádio não tinha marca!... Problema resolvido!

    

     Certa ocasião constou que um dos criados da casa tinha morrido no Tâmega ali para os lados da Galinheira, quando numa sesta(24) se banhava nas suas águas límpidas. Dizia-se que o corpo não teria aparecido por ter sido engolido num dos muitos redemoinhos que por ali se dizia haver. De facto e até hoje o desgraçado não deu à costa. Porém, isso não obstou a que se tentasse levar por diante um enterro digno. O Balele, numa tarde de cegada na Veiga fez constar, entre o rancho de trabalhadores, que o corpo tinha aparecido e que estava em câmara ardente no salão grande da casa, pelo que no regresso do trabalho todos poderiam participar no respectivo velório, rezando um terço por sua alma. Teve a tarde toda para preparar a cena como lhe convinha. Contratou um amigo armador que com ele preparou a sala com todos os requintes que se exigiam dum mortório a sério. Não faltava a urna, os candelabros de azeite que ardiam mortiços criando um ambiente de penumbra sobre um caixão roxo que repousava em dois suportes cromados. Uma grande cruz sobre a cabeceira dava o toque final. Na urna repousava então o volume do corpo do infeliz completamente coberto por um véu preto opaco como convinha para que não se visse o estado de putrefacção que já mostrava. É evidente que do volume do corpo não tinha senão um fato velho preenchido com feno e uma cara deslavada fabricada de pasta de jornal, mas tão bem feita que ao longe e na penumbra, imitava na perfeição o defunto. Quando pela tardinha as pessoas iam chegando do campo passavam por lá, botavam água benta e rezavam um padre-nosso pela alma do infeliz. À noite rezar-se-ia o terço como era costume. Contratou a tia Cândida para debitar as Avé Marias. Antes porém fez passar uma corda fina pelo estrebão(25) da casa e que ligava o pescoço do defunto à uma sala contígua. A corda estava perfeitamente camuflada pelas colchas roxas que adornavam a cabeceira do morto. Acontecia que quando se puxasse na outra sala isso faria com que o defunto se levantasse precipitadamente e com grande estardalhaço porque às pernas do espantalho prendeu uma série de campainhas dos bois. A noite foi chegando e com ela os muito afanados fiéis. Tudo estava pronto e a Tia Cândida deu início às ladainhas com a sala quase repleta. O sobrado de castanho rangia com o peso. Botou Avé Marias e Pai Nossos sem conta e quando tudo já dormitava no rame rame das rezas, o Balele, sorrateiro, esgueirou-se para a sala contígua. Quando lhe pareceu, deu um valente puxão à corda fazendo saltar o morto que aos toques endiabrados dos guizos ficou pendurado, à laia de enforcado, na trave da sala. Meu amigo, o pânico foi de tal ordem que o pessoal que não desmaiou precipitou-se para a porta estreita para dar de frosques(26). Porém, o peso inusitado de tanta gente aglomerada sobre os caibros que sustentavam o sobrado junto à porta de saída fizeram-nos ceder e foi tudo parar à loja dos recos(27), numa escuridão total. O morto baloiçando na trava continuava a tilintar campainhas, os homens e as mulheres, num amálgama, chafurdavam no esterco da loja. Os desgraçados dos recos a grunhir assustados como diabos, faziam da cena um autêntico Inferno de Dante. Os que puderam escapar-se pela porta da corte para o pátio, largaram rua acima para não mais pararem. Os que desmaiaram, iam acordando aos poucos e fugindo quanto podiam, os que ficaram feridos com o desastre gritavam como almas penadas cuidando estarem já a caminho das parafundas(28) do inferno!

     Quando tudo se esclareceu o Balele teve de fugir para a Póvoa de Varzim até que tudo estivesse esquecido. Não demorou muito tempo que pudesse regressar na paz do senhor porque apesar de tudo já ninguém deixava de se rir com o arrojo daquele alma do diabo!

 

Gil Santos

 

1 - O diabo em figura de gente

2 - Não fazer nada

3 - Utensílios refinados

4 - Tecido fino

5 - Anel muito grande

6 - Velocidade mais alta da caixa de velocidades

7 - Comia-os

8 - Se desfez

9 - Uma mulher matrona

10 - Se separassem

11 - Mal limpas das borras

12 - Petróleo - vinho

13 - De estalo

14 – Devagarinho

15 - Grande e grosso

16 - Um coice

17 - A jogar

18 - Ratoeira

19 - Parolos

20 - Espécie de pássaro

21 - Atrevei-vos a abri-lo e vereis

22 - Desande

23 - Rádio

24 - Costume de dormir depois de almoço no Verão

25 - Forro

26 - Fugir

27 - Corte dos porcos

28 - Funduras

 

 

 

 

 


publicado por Fer.Ribeiro às 03:51
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