Quinta-feira, 4 de Junho de 2009

Discursos Sobre a Cidade - 54


Discursos Sobre a Cidade - 54, originally uploaded by frproart.
 

(V)

 

A esquadra pareceu-lhe ainda mais lúgubre e miserável do que anteriormente. Sob as luzes ténues, as fardas cinzentas tornavam-se indiscretamente visíveis e as barrigas arredondavam-se ainda mais, de forma obscena. Tudo o resto eram sombras que escondiam as reentrâncias das paredes, o salitre que nelas crescia e as baratas que se escapuliam silenciosamente.

 

Haviam-lhe dito que durante os dias mais frios de Inverno aquela penumbra abrigava também o rastejar faminto e desesperado dos ratos, conhecedores de todas as gretas e frinchas do velho soalho. Num canto, viam-se ainda as marcas das balas que um polícia novato disparara, numa tediosa noite de serviço em que decidira aproveitar os roedores para praticar tiro ao alvo.

 

Os veteranos divertiram-se com a façanha e a irresponsabilidade do maçarico, apostando logo, uma vez que a transferência era certa, em qual das esquadras mais reles iria ser colocado. Nos dias de serviço interminável, e sem qualquer história, as apostas eram o passatempo preferido, sendo apenas suplantadas por alguma lerpa ou bisca que se jogava numa arrecadação, à sorrelfa, quando a noite ia alta.

 

"Uns ignorantes e uns molengões!", pensou o inspector. Ali, apenas lhe prendiam a atenção o subchefe e o comandante. O subchefe, um finório, tinha sempre arranjinhos por fora que lhe iam arredondando o vencimento. O comandante, esse, só pensava noutros arranjinhos. Ainda novo, não podia ver rabo de saias nem deixar de apertar com tudo e todos quando lhe dava na gana, só por ruindade. "Um grande filho da puta, que se julga o maior cá da terra", na opinião despeitada de muitos concidadãos, entre os quais se contavam alguns maridos enganados à conta da sua fogosidade. "Um cobardolas de merda, que se acagaça com os superiores e os militares, e fica em sentido connosco", na opinião desdenhosa do inspector.

  

"Sabe ao que venho, senhor comandante", disse o inspector quando entrou no gabinete sem bater. O comandante virou-se, enfurecido, mas acalmou-se e levantou-se de imediato quando viu a pessoa que tinha na frente.  

  

O inspector, impassível, fez um pequeno movimento com o queixo, em direcção ao comandante. Este olhou logo para baixo e, sem qualquer embaraço aparente, abotoou rapidamente a braguilha, enquanto dizia para uma rapariga, desalinhada e estarrecida, que se quedara junto à secretária – "Podes ir. Depois falamos..."

 

(continua)

 

 

 


publicado por Fer.Ribeiro às 23:12
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