Sexta-feira, 30 de Abril de 2010

Discursos Sobre a Cidade - 96 - Por José Carlos Barros

 

.

 

Dois sonetos

sobre os impossíveis regressos

 

um poema de José Carlos Barros

 

http://casa-de-cacela.blogspot.com

 

 

Às vezes é preciso regressar às coisas simples:

às folhas das árvores do jardim das freiras

ou à sombra estendida na sissi em dias de feira

a beber uma taça de branco por entre guarda-chuvas

 

pendurados nas costas das cadeiras e chapéus

de feltro a um canto da mesa deixando poisar

a meia-dúzia de pastéis; às edições do notícias

de chaves a duas cores e aos matraquilhos

 

e às máquinas de jukebox do tabolado e ao labirinto

das estantes do silva mocho onde chegámos

a suspeitar que havia de tudo; e aos táxis pretos

 

e verdes olhando-se da escadaria do quiosque enquanto

em duas caixas se puxava o brilho aos sapatos

fazendo estalar um pano e depois ouvindo-o ranger

 

pela fricção num muito rápido e mágico movimento

oscilatório. Às vezes é preciso regressar às coisas

simples: ao jogo do sapo no faustino ou às girafas

da romana e ao foyer do cine-teatro no intervalo

 

do expresso da meia noite com o brad

davis que por muito tempo foi o nosso herói muito

além do sport ou da ibéria e da rua de santo antónio

e das cidades todas de espanha e do estrangeiro. E regressar

 

(sobretudo) ao que não se diz num poema

quando a exaltada juventude nos levava por onde

mais os erros e os perigos se desenhavam.

 

Oh mas quem me dera regressar verdadeiramente

e saber o que sei hoje para repeti-los todos:

todos os erros e todos os perigos.


publicado por Fer.Ribeiro às 01:03
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Sexta-feira, 23 de Abril de 2010

Discursos Sobre a Cidade - 95 - Por Gil Santos

 

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A LAVADURA

 

Seriam umas quatro da tarde. O sol de Março, coado por cirros de cristais de gelo, ainda não fazia quente aquele início da Primavera. Soprava no Planalto um vento galego gelado.

 

— Parece que pariu uma galega, Ti Maria! — Grunhia o Adelino Beiças, tralhado de frio, à passagem pelo forno do povo. Vinha de cá botar o gado do lameiro do Belão.

 

— Aqueça-se aqui um cibo home!


Que não podia, que tinha ainda muitos afazeres.

 

Era véspera de Ramos. Tempo de cozer os folares para a Páscoa (1). Este ano, a festa da Ressurreição era temporã. Ninguém gostava muito que assim fosse, pelo temor que causava o adágio: “Páscoa em Março, muita fome e muito mortaço”. Mas nem por isso deixava de se cozer o bolo típico do Planalto, o folar. Fazendo jus à tradição, botava-se a massa recheada por nacos de carne gorda da pá nos alguidares de barro preto de Nantes que, corados pelo forno de lenha, faziam a alegria e a fartura das casas, na benzedura do compasso. Porém, o forno tinha de ser escalado. A aldeia era grande e todos faziam questão de cozer por essa ocasião.

 

Nesse dia, calhou a vez à Maria Pataloa. Mocetona casada e ainda na casa dos vinte, começara a lida cedo. Uma grosa de ovos de galinha pedrês, meio salpicão, umas três linguiças, um troço bom de carne da pá, um cibo de presunto e uns doze quilos de farinha triga, os ingredientes. Era preciso bater bem a massa para os fazer azadinhos, o que não era tarefa muito fácil. Assim, invocou a ajuda da comadre Quinhas. Pelas duas da tarde os folares já fermentavam no estendal contíguo à masseira. Acenderam o forno com umas fronças secas de giesta piorneira para que pegasse bem. À porta, dois carros de lenha cortada na véspera pelo Zé Patalão haveriam de pôr branco o tijolo burro da fornalha, sinal de que estava pronto para cozer. Pelas quatro da tarde, lá entraram os folares no forno, com a benzedura do costume: “Cresça o pão no forno e os bens pelo mundo todo. Um Pai Nosso e uma Ave-Maria, cresça o pão pela freguesia.”


Ao canto da casa do forno, era costume estar um balde de folha com lavadura que servia para recolher as aparas da carne e as sobras da massa. Naquele dia estava cheio. Água, farelo, barredura dos pratos e os cibos das aparas da carne dos folares, davam à mistela um aspecto que só os dois requitos da Quinhas, cevas no próximo Natal, haveriam de gostar.


Pelas seis da tarde estavam cozidos os folares. Ficaram bons! Exalavam um aroma irresistível que aguçava o apetite a qualquer um. Às tantas apareceu por lá a Rosa Milheira, uma moçoila de vinte e cinco frescas primaveras, casada há cinco meses e prenhe de sete.


— Ó Ti Pataloa, vossemecê desculpe, mas cheirou-me tão bem aos seus folares, que me deu a gana de lhe pedir um cibo! É mais para o menino não nascer de lábio rachado ou eu não mober, não é para mais nada!.. Andar de apetites, sabe vossemecê como é!..


Claro que a Maria Pataloa não queria responsabilidades nem pesos na consciência. Vá que acontecesse alguma coisa má à vizinha e depois o que haveria de dizer o povo?!..


— Claro Rosinha, não seja por isso! Toma lá um carôlo deste mais cozidinho.


E lá foi a moça toda contente a rilhar o pedaço do folar.


— Ó comadre, olhe que nunca acreditei muito nestes desejos das grávidas — comentava a Quinhas com desdém.


— Vá-se lá saber, pelo sim, pelo não!..


— Não lhe apeteceu a ela um bocado da lavadura dos reco, ali do balde!.. Ora essa, está bem está!..


Isto passou.


Daí a uns bons cinco anos a Quinhas emprenhou. Foi uma alegria uma vez que as más línguas já diziam, à boca pequena, que para não engravidar em três anos de casada é porque era matchorra!


A Quinhas não cabia em si de contente. Peneirava-se pela freguesia de bandulho empinado para que não restassem dúvidas do seu estado. Que todos vissem que afinal era boa fêmea!


Andaria de seis meses quando, numa tarde, foi visitar a comadre Pataloa. Entrou casa adentro e proferiu a saudação da praxe:


— Nosso Senhor a salve, comadre!

— Salve-a Nosso Senhor.


Conversa puxa conversa e a atenção da Quinhas cada vez se fixava mais num canto da cozinha onde era costume estar o balde da lavadura. Bem tentava desviar de lá o interesse, mas não o conseguiu por mais que se esforçasse!

Não resistiu.


— O Ti Maria, vossemecê desculpe…


Dirigiu-se ao balde e desviando com as mãos trémulas o farelo que boiava sobre a gordura da tona, espetou as ventas no líquido e sorveu duas boas goladas para espanto da comadre que, de olhos esbugalhados, nem queria acreditar!


— Foi castigo! — Pensava a Pataloa aturdida!

— Ai comadre, não resisti! Apetites das grávidas, sabe como é!..


A verdade é que daí a uns três meses nasceu o pimpolho. Um rapagão! Forte como o granito do Brunheiro e escorreito como um touro de cobrição.


Vá-se lá saber se foi da lavadura ou se não foi!


O certo é que daí em diante as comadres passaram a crer piamente nos desejos das mulheres grávidas. Bem… não seria para menos!

Ele sempre há cada uma!

 

Gil santos

In “Ecos do Planalto – estórias”, adaptado

 

 

 

(1) - Para se saber quando calhava o Domingo de Páscoa, após o Entrudo contava-se cada Domingo assim: Ana, Magana, Rebeca, Susana, Lázaro, Ramos, na Páscoa estamos.


publicado por Fer.Ribeiro às 00:30
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Sexta-feira, 16 de Abril de 2010

Discursos Sobre a Cidade - 94 - Por Blog da Rua Nove

Texto de Blog da Rua Nove

 

(X)

Afastando-se das imediações do forte, o inspector Bento entrou no Bacalhau vindo do Bairro Aliança e preparou-se para começar a descer a Rua de Sto. António. Nascia o dia. Uma manhã fresca de primavera, prometendo um céu sem nuvens. Lembrava-se das manhãs de nevoeiro e geada que anos antes encontrara no inverno, e a cidade pareceu-lhe outra. A pérgola do jardim fez-lhe chegar o aroma das glicínias. Quase lhe apeteceu assobiar despreocupadamente. A rapariga era um pedaço. Pena era a criança, mas sempre serviria para lhe evitar outras complicações.


Por momentos esquecera o assunto que ali o trouxera. Aprumou-se quando se apercebeu que já havia gente nas ruas e começou a caminhar mais devagar. Queria dar a impressão de vigilância apertada e atenção redobrada. Queria que o vissem como alguém que por ali andava àquela hora por dever profissional. Omnipresente e vigilante.


Já deveria ter mais informações à sua disposição. Mas precisava de dormir algumas horas. Quando chegou ao fundo da rua estranhou o largo à sua esquerda. Estava habituado às arvores e ao gradeamento do antigo mercado, à agitação das gentes e aos sons que dali vinham. O Arrabalde parecia-lhe agora uma praça sonolenta, à espera de acordar com a chegada dos oficiais de justiça e as zaragatas barulhentas dos litigantes.


À entrada da Rua 28 de Maio amontoava-se uma meia-dúzia de pessoas, esperando a partida da carreira de Braga. Gente ensonada, crianças aninhadas entre gigas e sacos, um ou outro animal de criação. Entrou no hotel quando alguns hóspedes já saíam. Todos o saudaram tirando o chapéu, mas ninguém parou para o cumprimentar. Dirigiu-se para a sala de refeições, onde tomou o pequeno-almoço numa mesa de canto. Sozinho, com olhares e ademanes de afectação e superioridade.


Subiu depois para o quarto, cruzando-se com as criadas que tratavam das arrumações. Deitou o olhar a uma, deu um piropo a outra. Sorridente e seguro entrou na habitação. Perdeu o sorriso quando se apercebeu que alguém lá tinha estado e que havia um envelope sobre a mesa.


(continua)

 



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Sexta-feira, 9 de Abril de 2010

Discursos Sobre a Cidade - 93 - Por Tupamaro

 

.

 

CONVERSAS COM ZEUS


-X-

“Reparaide”



 

Zeus telefonou-nos a lembrar-nos para não nos fazermos esquecido e cairmos na maldade de não lhe enviar um carolinho de Folar.

 

Malandreco! Pois até nos constou que tinha enviado Deméter, disfarçada de ceifeira alentejana, a Valpaços, no fim de semana último - o vento fizera-lhe chegar às Cancelas do seu Jardim um Post(al) «pirésico» com ilustração da XII Feira dos Sabores lá das “Encostas do Rabaçal”.


Sabendo da «queda» de Dioniso para as Trincadeiras, Zeus deixou que aquela jeitosa prima de Deméter, e que traz o Niso pelo beicinho, seguisse na comitiva, com a recomendação de não se esquecer de umas garrafitas de Touriga Tinto.

 

Assim avisado, dissemos a Zeus que teria sido bem melhor ter vindo à Feira de “Alguns Sabores e Nenhuns Saberes” de CHAVES!

 

-Estás louco ! - gritou-nos Zeus.

 

Se aí fosse, então é que ordenaria a Hefesto a feitura de um molho de raios para partir uns estuporzitos que continuam a não só consentir como a fomentar a degenerescência dessa bendita terra que os meus afilhados Vespasiano e Trajano enobreceram.


E se por aí continuam com tanta asneirada ainda acabarei por consentir que qualquer ajudante de Hefesto aí monte a sua forja.


E olha que com esse plano socretino das Barragens é o que acabará por acontecer.


Vê lá se convences esses «cromos» travestidos de edis normando-tameganos a ganhar juízo e a baterem o pé (ou apertar o papo) aos troca-tintas que governam desde Lisboa.


Até me sinto grego com tanta merdice que encharca o teu País.

 

-Eih! Zeus! Olha que essa «gaijada» é «fixe». Só quer o bem do «Nosso Povo» ao fazer pela sua própria vidinha!

 

Sabes bem que a água é o petróleo do futuro. Repara que um quartilho da de Vidago, de Caralhelhos ou das Pedras custa mais do que um litro de gasoil!

 

Assim, toca de fazer grandes armazéns para reservas de água estratégicas.

 

Qualquer dia faz-se um guerrazita no Grande Deserto Australiano ou na Mongólia e, zás! … lá vêm uns Baris de Ma$$a para…


-Bem m’ou finto! – atalhou Zeus.

 

(“Reparaide” como «o gaijo» está apanhar o «valdantês». Schiu!).


Perante as notícias do Blogue “CHAVES”, até é de estranhar não aparecer por ali um lalãozinho a declarar ter «pena, muita pena» por este dizer tão mal do (des)Governo; ou um qualquer «cialista» indignado , clamando que está sempre a ser contra o «p’ogresso» e o futuro.


Perante este plano de mais um mau trato à Região, a Vereação e a Assembleia Municipais fazem há-de conta que nem sabem do que se fala.


É a triste pobreza dessa Terra estar a ser guiada por bonifrates.


Indignam - nos Postais deste Blogue.


Mas as javardices, cretinices (e socratinices) decretadas desde o Terreiro do Paço a denegrir, a empobrecer a Normandia Tamegana não lhes causa o mínimo incómodo. Combinam muito bem com as basófias espúrias e os cúmplices silêncios da maioria de «esquerdalhos» e «direitalhos» que administram os interesses Normando-Tameganos e dos que com dores de qualquer «partidarite» se propõem ao mesmo, com atrevida incompetência e com descarada imposturice e hipocrisia.


Querem lá saber do solene compromisso assumido nas candidaturas, nas campanhas e nas tomadas de posse!


O silêncio dos edis, dos deputados municipais, dos núcleos político-partidários locais, municipais e distritais é bem revelador da insignificância patriótica (amor à sua Terra) das maiorias dessas trupes.


Fiteiros!


A coragem cívica e política guardam-na toda para lamber as botas a quem lhes cheirar poder atirar-lhes com um ossito.

 

- Zeus!!! – gritámos-lhe.

 

Se em vez de «sermonar» enfiasses esses marmanjos todos em séjanas de Fez!

 

Sabes…

(Como foi ele a «chamar» e a conta era ele quem a pagava, deixámo-lo interromper).

 

- Não falta muito para lhes facilitar um passeiozinho “à Panfílio”.


Pode ser que aprendam.


Mas, deixemo-nos destas coisas.


“Alembra-te”, mas é, de me remeteres, a tempo e horas, um FOLARZECO para em me consolar no próximo Domingo.


Já agora, arranja também um cabrito ( já «arranjado»!) daqueles que andam a pinchar ali pela Padrela …ou pelo Alvão!


E como já tens encomendas para te incomodar, despeço-me até breve.


- Tomei nota, Zeus. Mas vê lá se nos fazes chegar, ao menos, umas amêndoas de Moncorvo!

 

 

Tupamaro


publicado por Fer.Ribeiro às 00:17
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Sexta-feira, 2 de Abril de 2010

Discursos Sobre a Cidade - 92 - por Fe Alvarez

 

.

 

AQUEL LLANTO!

 

 

Texto de Fe Alvarez

 

 

 

 

 

- Te lo repito, no quiero nada con la religión.

 

- Perdona, pensé que eras creyente.

 

- Y quien dice que no lo soy, quién!? una cosa es la Iglesia y otra Dios.

 

- Bueno, entiendo, no quieres nada con la presentación oficial de la religión. Sus normas, sus ritos etc.

 

- Para que me entiendas, te contaré el momento en el que me sentí perdida, en una situación que me llevó a un caos moral y busqué un apoyo, una mano, que me sacase de aquel mar de dudas, me aliviase el peso que cargaba, por momentos pensé perder la razón, pero... en fin mis pasos tomaron el camino equivocado, el apoyo, el consejo, el bálsamo que me aliviase, no vino de donde lo busqué, solo el tiempo que termina por curarlo todo, me concedió la calma, aunque también hé de decir que en ese momento, en el que vi tambalerase la base de mi mundo, reaccioné y tomé mi camino, acertado o no, no me arrepiento y en ese momento vino también la necesidad de apartarme de la religión establecida, flexible por intereses y férrea con verdades trasnochadas. Tendré que remontarme a mi juventud; si tienes tiempo...

 

- Te escucho.

 

- Todo empezó cuando llegó el momento de que me casasen, lo digo así pues algunas veces pienso que me casé casi por imposición, aquello parecía un decreto ley. No quiero decir con esto que mi marido no me gustase, no, pero fue algo así: "eres una rica herdera y tienes que buscar a alguien con buena posición" casi se me forzó a escojer y allí estaba él con dinero, guapo, buen mozo, con pretensiones a agrandar su hacienda, seguramente aleccionado, como lo fui yo, imaginandose un semi-dios, hijo único, consentido y caprichoso y en realidad y como el tiempo demostró un perfecto gañan. Y por el otro lado, yo, con todas las tonterias que nos aporta estar en la edad del pavo, sin alcanzar las responsabilidades de una vida a dos, tonta e ilusionada, todo me parecía un cuento de principes y princesas que llevaría el fin de: "fueron felices y comieron perdices". Como nos engañan en los cuentos...! ponen el final, cuando en realidad es el principio de una vida muy distinta a la que se llevó, con una niñez entre algodones, una protección extrema y después de esto te lanzan sin piedad, como lanzaban a la arena a los cristianos en la Roma Imperial. Hoy, en la distancia lo analizo y veo la colección de mentiras, errores, casi locuras, en que todos tomaron parte, sin excluirme, pero antes no lo veía, tenía demasaiados pájaros en la cabeza, pero los que ya estaban de vuelta en la vida, por qué seguir representando una comedia? Qué disparate! Menos mal que hoy en día la gente es más consciente, aunque también duran menos los matrimonios, pero si duran a expensas una vida de sacrificios y tener que aguantar como un titanes, aparentando que todo está bien, no lo veo tan mal.

 

Después de los primeros tiempos, en los que no recuerdo ni vagamente la cacareada "Luna de miel" empezó el día a día y en poco tiempo ese día a día fue convirtiéndose en un martirio, llovian los golpes, las malas palabras, los gestos, las faltas de respeto, todo un ramillete de despropósitos, incomprensibles, me sentí engañada, atrapada y perdida, al principio, callé por verguenza, no podía creer el que cuento de hadas se transformara en aquel mundo de terror, siempre como disculpa, había una caida una puerta un tropezón y la conocida disculpa " me caí por las escaleras" cuando los moratones eran múltiples y evidentes, veía las miradas de incredulidad y silencios que gritan, no se oyen con los oidos, se sienten en el corazón, en el plexo solar, todos toleramos y consentimos tamaña ignominia; llegaron los hijos, seguian los malos tratos, cualquier cosa servía como disculpa para golpearme, algunas veces bastaba una mirada un mínimo gesto, que un niño llorase, que la comida no estuviese como él exigía, que una empleada no realizase su trabajo como él imponía, recuerdo un día estando en el séptimo mes de uno de mis embarazos, salí al patio de casa cuando él llegaba, después de una noche de farra, aún hoy no llego a comprender el motivo, no lo había, empezó a golpearme brutalmente, entre improperios, acusaciones y amenazas de muerte, después me arrastró por el pelo hasta el tanque, me metió la cabeza bajo el agua, intentando ahogarme, luché por mi vida y por la de mi hijo, desesperadamente, pero él era más fuerte, una empleada lo sorprendió en su locura e intentó impedir que me matase, lo logró pero consiguió que tembién le tocase a ella parte de su ira, la cabeza me quedó llena de bultos los brazos , las piernas y el tronco denotaban los derrames internos, lo peor era el dolor que me quedó en el fondo del vientre. Dos días después perdí a mi hijo. La vida seguía y mis niños me necesitaban.

 

Y esa era mi vida entre amarguras y golpes, las alegrías venian con los hijos, que aunque crecian en este medio hostil lo hacian como si aquello no fuese con ellos, o al menos lo aparentaban, solo temía que los marcase de por vida; con su aparente ignorancia encontraron una terapia, los pequeños son fuertes, tienen defensas para sus fantasmas y miedos y eran muchas las veces que captaban el ambiente tenso, aunque eran ajenos a la barbarie del padre. Con ellos era por veces indiferente, otras algo cariñoso y aunque pocas veces también eran víctimas de su agresividad. Cuando el progenitor no estaba en casa, jugaban, reian, saltaban como cualquier niño de su edad, llegaba el ogro y los pequeños parecian volverse invisibles. Menos mal que sus ausencias iban aumentando.

 

Después había las amantes, que no se presocupaba en esconder, la humillación, el dolor, al principio pensé, bueno si tiene donde entretenerse me dejará tranquila, craso error, nada cambiaba en casa, todo seguía igual, por momentos peor. Sus frustraciones, sus locuras o sus miedos, siempre, siempre desembocaban en mi. Tenía que aguantar, era lo que me decían, "el matrimonio es para siempre", ten paciencia... son los ardores de la juventud... es una etapa... todo pasará etc. etc. Mentira, todo una cochina mentira. Son tan interminables los días cuando se sufre... y las noches, esas es preferible ni nombrarlas.

 

Hubo una temporada en que vino, para ayudarme con los pequeños, una ahijada, la madre accediera con agrado para así aliviar la mermada economía de su casa, quedó estipulado que yo la vestía la alimentaba y le depositaba un dinero en una cuenta para cuando fuese mayor, la muchacha era muy trabajadora, amable con los niños y ellos la adoraban, todo parecía ir bien, demasiado bien, por eso cuando me dí cuenta que estaba embarazada, ví con claridad lo que había pasado, este era el motivo de disfrutar una etapa de bonanza, por eso mi marido no me pegaba tanto, ante la pequeña quería aparecer como un buen hombre y poco a poco la sedujo. Pensé que el mundo se me desmoronaba, yo que pretendí ayudar aquella familia, la enveredara hacia una situación amarga. En aquellos tiempos, tener un hijo siendo soltera, era casi un delito, una mancha que marcaba de por vida.

 

Pensaba como comunicárselo a sus padres, temía el momento y entonces noté su ausencia no estaban en casa, en mi cabeza se me instaló una alarma, qué representaba aquella escapada! pensé en mil posibilidades, al final de la tarde una llamada telefónica, esclareció el motivo, la había llevado a Porto para abortar y como las cosas estaban mal yo tenía que ir a una zona determinada del Marão donde me esperarian, me llevaría un amigo que tenía que ir a Porto, nunca supe si era verdad o estaban compinchados. Dejé los niñas al cuidado de los empleados y salí rapidamente. La carretera se me hizo eterna, nunca le vi tanta curva. Allí estaban, en realidad no sé lo que le hicieran, estaba en trabajos de parto, mejor dicho el parto era inminente, hice lo que pude, Dios mío! una niña con aquellos problemas, por culpa de la mala cabeza de un hombre loco, egoista y cruel. Después de poco tiempo nació un niño ( ya era de casi 7 meses) mi marido lo arrancó de mis manos, le dije que lo cuidaría como mío, no quiso razonar ni atender a mis ruegos, mi ahijada no decía nada, estaba con los ojos clavados en un punto perdido del techo del coche. En un último esfuerzo intenté recuperar al bebé, él me empujó y en un impulso lo lanzó al vacío. Qué horror! el pequeño lloraba, me puse como loca, lo golpeé con los puños en el pecho, me abofeteó y me metió en el coche, a la fuerza y volvimos, con el momento fatal repitiésdose en mi mente, una y otra vez, sin descanso y aquel llanto, clavado en el cerebro, me oprimía el pecho y me perseguiría por mucho tiempo, tenía remordimientos, me sentía culpable, me llamaba asesina y no podía dormir. Todas las noches oía aquel llanto, me atormentaba; mis terrores nocturnos me hacian pasar noches sin dormir, me imaginaba a la tierna criatura devorada por las alimañas, destrozada en la caida, pero el llanto, EL LLANTO! ese no cesaba.

 

La niña, para prevenir daños mayores, fue enviada a casa de un familiar, lejos de Chaves, no sé si fue consciente de lo que pasó en aquella carretera. Yo adulta, estaba marcada, qué sería de ella? Aquello me decidió a dar un giro a mi atormentada vida. Antes fui a la iglesia, tenía que confesarme, aconsejarme y quitarme parte de aquel peso. Después de un relato desgarrador, entre lágrimas y suspiros, oigo decir al confesor.

 

- Hija mía hiciste lo correcto, obedeciste a tu marido y lo amparaste.

 

- DIOS MÍO!

 

No me lo podía creer. Y la vida y el cuarto mandamiento? No hubo razonamiento posible, ellos siempre pretenden estar em posesión de la verdad absoluta, eres considerado un ser inferior semianalfabeto en el terreno religioso y no puedes entrar en valoraciones, después de esto no recuerdo si me impuso penitencia, tampoco importaba mucho. Escuchar aquello y seguir? NO, la penitencia me la impuse yo misma, seguir oyendo en el silencio de la noche, aquel llanto durante mucho tiempo y con resignación.

 

El asco llegó como un maremoto, no podía con soportar su presencia, por eso me envalentoné y lo expulsé de mi casa, creo que temió mi gesto determinado, le sorprendió mi actitud, ya no le tenía miedo y así lo comprendió, sin palabras y apoyado en su nueva conquista se marchó. Los hijos y yo seguimos nuestro camino, con mil trabajos, pero tranquilos. Que la paz no puede pagarse con dinero.

 

Y aquí fue donde se torció para siempre el camino que me llevaba a la iglesia. Si no recuerdo mal, no fue Jesús que dijo?: Si tu ojo te escandaliza arrancatelo, si tu mano te escandaliza cortatela. Pues yo me arranqué lo que me escandalizó.

 

 

 

.


publicado por Fer.Ribeiro às 01:24
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Discursos Sobre a Cidade - 91 - Por José Carlos Barros

 

.

 

 

Um regresso em finais de Março


 

poema de José Carlos Barros

 

http://casa-de-cacela.blogspot.com

 

 

1.

Parecem vir de um tempo anterior ao tempo

os olhares destes amigos que se encontram

numa casa de Santo Amaro

às nove da manhã de sexta-

-feira: abrem os livros e procuram apenas

o que não está escrito

nas páginas dos livros.

 

2.

Não é outra coisa

Isso a que chamamos tempo:

empurra-nos para dentro de nós mesmos

quando mais desejávamos disparar a pedra

que vai de uma a outra margem do rio

sobre a copa dos amieiros altos.

 

3.

Talvez a cidade tivesse mudado pouco

durante os últimos sucessivos anos

e muito no modo como

pareciam iluminadas as sílabas das palavras

quando por esse tempo dizíamos

em voz alta o nome do Largo das Freiras.

 

 


publicado por Fer.Ribeiro às 01:23
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